Há quem acredite que o exercício crítico seja colocar em ordem as coisas, como se pudéssemos esclarecer ao espectador algumas brechas da imagem ou da narrativa. É uma ilusão, primeiramente, acreditar que o crítico de arte esteja na posição de interpretação. E em segundo lugar, ninguém detém o poder de definir o que um filme diz, nem mesmo o próprio cineasta.
Aquele que viu o Abismo, filme de Gregorio Gananian e Negro Leo, que chega aos cinemas nesta quinta, 30, possibilita que esse exercício de escrever uma crítica seja uma tarefa prazerosa. E escrevo isso não por considerar o filme um exemplo da impecabilidade fílmica – tratarei disso mais a frente – mas por entender que o projeto possibilita que o crítico ou o espectador esteja na posição de olhar o abismo.
Enquanto o personagem de Negro Leo anda pelas ruas chinesas, enquanto observa o recrutamento da ProLife, a imagem cinematográfica se torna um veículo do ruido, do caos, da instabilidade. A montagem transforma o digital em uma matéria arquivista e corrompida, que ora parece frenética, ora soa desestabilizante.

Talvez, por isso, seu comentário social, por vezes, soe desorganizado. Não existe, por parte dos cineastas, o desejo de uma narrativa que caminhe em uma linha reta; pelo contrário, existe o gesto de uma profusão de imagens e sons que provocam sensações dispersivas. E, talvez, aí esteja a questão central e formal do filme. Nesse convite, para testemunharmos o abismo junto ao protagonista, a dispersão se torna um método. O caos exterior exige uma linguagem igualmente desfragmentada.
É nesse turbilhão formal que as animações surgem como uma construção visual que criam uma fricção com a realidade. Da mesma forma, os momentos em que o filme se curva a uma matéria mais arquivista evocam inevitavelmente a atmosfera de La Jetée, de Chris Marker.
Há em Abismo essa mesma pulsação espectral que por vezes suspende temporalmente algumas das noções que pré-concebemos. A experiência da obra desafia a postura passiva de quem busca na sala de cinema uma tese bem delineada. O filme se utiliza do ruído digital, do documento e do grafismo para gerar o mistério.
Naturalmente, essa aposta na dispersão cobra o seu preço: em determinados momentos, existe uma sensação de um automatismo formal que se dilui na fusão dessas abordagens. Ainda assim, o trabalho de Gananian e Negro Leo almeja – e por vezes, consegue – provocar sensações diversas em quem se dispõe a olhar o abismo, seja para cairmos juntos nessa vertigem, seja para sairmos da sala de cinema ainda pensando na densidade das imagens que acabamos de testemunhar.


