qui, 30 julho 2026

Crítica | A Professora de Piano

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Algo que o diretor Michael Haneke faz muito bem é representar o lado mais esquisito do ser humano. Seja por buscar um grau de desconforto que possa até beirar para muitas pessoas como uma apelação ou algo do tipo, mas na verdade ele cria uma condição com seus personagens que são constantemente jogados em diversos sentimentos.

Erika Kohut (Isabelle Huppert) trabalha como professora de piano no Conservatório de Viena. Ela não bebe nem fuma, vivendo na casa de sua mãe (Annie Girardot) aos 40 anos. Quando não está dando aulas, Erika costuma frequentar cinemas pornôs e peep-shows, em busca de excitação. Logo ela inicia um relacionamento com Walter Klemmer (Benoît Magimel), um de seus alunos, com quem realiza vários jogos perversos.

Aqui, Isabelle Huppert faz um trabalho magistral ao retratar uma professora vivendo constantemente sem controle de sua vida e buscando algum tipo de controle ao exercer seu trabalho de professora de piano e repartindo sua frieza, apatia e exigência aos seus estudantes. É uma vida refletida com a criação de sua mãe que busca constantemente controle de onde ela vai, por quanto tempo, que horas retorna, isso tudo com uma mulher de mais de 40 anos de idade. É tão absurdo que aos poucos vai revelando sua vida mais oculta e buscando externalizar seus desejos mais íntimos, é assim cultivando o voyeurismo e automutilação como um escape para alguma individualidade com sua pessoa.

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E quando surge o jovem Walter Klemmer, uma esperança com Erika para que ela possa finalmente ter algum tipo de liberdade ou proximidade de um amor. Mas na verdade tudo se torna mais um jogo, um controle, uma escada diabólica que beira o controle psicológico e físico. São cenas que constroem um desconforto e qualquer momento de relação e toque se torna no filme uma cena repleta de estranheza, o jeito que os corpos desconfortáveis se mesclam. Até mesmo o ambiente, seja um primeiro contato no chão de um banheiro escondidos de todos. Ou até mesmo em seu quarto, onde precisam trancar a porta para que sua mãe ultra controladora não invada o local.

É uma personagem fascinante. Ela construiu uma figura de rigidez, apatia e controle(ou a tentativa?) por tanto tempo naquela alta sociedade que nos momentos que ela precisa de uma empatia ou conexão ela não consegue uma abertura. Tanto que ao seu final, quando ela está no estado máximo de desespero, mas ainda sim sem externalizar aquilo tudo para alguém por conta dessa sua construção de uma máscara, o que ela consegue fazer é sair de cena, ir embora, abandonar aquele local/sociedade que talvez nem tenha algum tipo de reparo após tanto tempo.

É um filme avassalador e com certeza um dos mais chocantes. Sua protagonista não exerce nenhum controle sobre sua vida, apenas uma tentativa ou ilusão com seu cotidiano e ela provavelmente sabe disso. O diretor pega uma relação entre um jovem e uma professora e distorce da maneira mais cruel possível, onde uma esperança de amor correspondido, mesmo que seja da maneira distorcida que ela materializa na carta para Klemmer, sua pessoa é rapidamente punida e quebrada fisicamente.
E o que resta para ela é retornar para a sociedade de máscaras e repreensão, mas no final nem ela mais aguenta aquilo.

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