qua, 16 setembro 2026

Crítica | Antártida

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Nas gélidas bases militares localizadas na Antártida, a recém chegada cientista, Inês, é prontamente descredibilizada por seus colegas do sexo masculino, devido sua pouca idade, suposta inexperiência com o continente, seus trejeitos delicados, e claro, sua “condição” de mulher. Ela não é a única no local, pelo contrário, existem outras, inclusive em cargo de comando – algo essencial para o desenvolvimento da trama – porém, ela é uma das mais jovens e a única a performar “feminilidade” no sentido tradicional do termo, tornando-a, logo de início, um alvo para as atenções masculinas indesejadas. Nos primeiros minutos, a garota se vê forçada a reafirmar sua posição mais de uma vez, gerando diálogos artificialmente girl power, que já servem para dar uma ideia do tom didático a ser adotado durante todo o filme.

Apesar da experiência acadêmica focada em glaciologia, Inês se mostra bastante vislumbrada com a beleza da neve naquele lugar isolado e, praticamente, intocado pelo ser humano. Pouco antes do primeiro ponto de virada, vemos a menina, embalada pelo álcool, contemplando maravilhada o cair dos flocos brancos, seus inocentes olhos esbugalhados lembram parecem os de uma princesa da Disney descobrindo um novo mundo – como Jasmine voando no tapete ou Rapunzel assistindo às lanternas. Ela “apaga” e, quando dá por si, essa inocência se dissipa tão logo percebe ter sido vítima de violência sexual. A transição no olhar da personagem – do deslumbre ao vazio para o posterior ódio – é mérito da atriz e teria rendido uma atuação visualmente impactante pela sutileza, se o roteiro/direção não a colocassem para bradar seus sentimentos toda vez que se lembram da existência da personagem.  

Afinal, em meio a uma penca de subtramas – algumas interessantes, outras nem tanto, mas todas mal exploradas– a vítima é esquecida e acaba apagada dentro da história, se tornando uma das personagens menos desenvolvidas do filme, servindo apenas para cumprir o papel de vítima, como se não existisse um ser humano para além disso. Ela não tem sonhos, amores, paixões, medos, limitações, nem mesmo personalidade, ela é apenas uma vítima bonita e inteligente – só na teoria, pois nunca é mostrada pesquisando nada de fato. Até os personagens de apoio tem romances, vícios, questões quanto a sexualidade, enquanto ela é a “a bela cientista estuprada”. Não que ela precisasse obrigatoriamente ser a protagonista, apenas por ter sido contra ela o crime cometido, veja o exemplo de Laura Palmer, a adolescente não é personagem principal de Twin Peaks, mas, mesmo morta, sua presença é sentida ao longo de toda a série e o público a conhece como pessoa.

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O diretor demonstra uma imensa dificuldade de comunicar qualquer coisa sem ser textualmente, até os cenários gelados são pouco aproveitados, salvo por alguns breves takes das paisagens externas – quase sempre em momentos inoportunos, interrompendo as cenas de forma abrupta. O frio é mostrado, sem nunca ser sentido, seja pela falta de timing, seja pela filmagem pouco impactante. Constantemente os personagens anunciam, de forma bastante expositiva, as baixas temperaturas extremas, as falhas do gerador, o derretimento de uma geleira e a dificuldade de conseguir transporte para fora dali, todavia nada disso tem peso e as consequências são todas passageiras ou pouco expressivas. O elenco se esforça na dramatização dos eventos, mas a direção não consegue converter nada em tensão palpável ou suspense crível.

Nem a investigação gera curiosidade, tanto pelos suspeitos pouco intrigantes, quanto pela condução burocrática dos interrogatórios, com pistas falsas e reviravoltas pouco impactantes, além das frequentes pausas para um comentário machista, seguido de um monólogo feminista pouco fluido e incapaz de sair do lugar comum, nem se aprofundar minimamente na discussão levantada ou trazer qualquer frescor para o debate.

Como se em uma produção cinematográfica a pauta urgente e relevante se bastasse em si mesmo, não há o mínimo comprometimento artístico na composição visual das cenas, de forma que os ideais do longa poderiam ser resumidos em um slogan ou post na rede social de caracteres limitados.

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
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