Uma promotora pede a prisão de uma ré, o júri aceita, e alguma coisa se quebra dentro dela ali mesmo, no tribunal, sem aviso e sem volta. É assim que Habeas Corpus apresenta Inez (Marjorie Estiano), e também o primeiro sinal de que a série está menos interessada em descobrir quem cometeu um crime do que em acompanhar o peso de acreditar que ajudou a prender a pessoa errada.
Anos depois daquele julgamento, Inez abandonou a promotoria, virou professora de Direito e reúne um grupo de alunos para reabrir o caso de Jonathan (Hypólito), condenado por um crime que insiste não ter cometido. O habeas corpus que dá nome à série serve para questionar a legalidade da prisão, mas o antigo escritório onde ela trabalhou agora representa a filha da vítima. Do outro lado da disputa está Murilo (Vladimir Brichta), ex-sócio e ex-companheiro de Inez, encarregado de acompanhar cada passo da investigação conduzida por ela.
A decisão mais inteligente do roteiro acontece logo no primeiro episódio. Marina (Any Gabrielly), uma das alunas mais dedicadas da turma, poderia facilmente ser apresentada como a personagem misteriosa que guarda um segredo até os minutos finais da temporada. A série escolhe outro caminho. Revela cedo por que ela está tão envolvida naquele caso e muda completamente o tipo de suspense que quer construir. A pergunta deixa de ser “o que ela esconde?” para virar “quanto tempo falta para Inez descobrir?”. Parece uma mudança pequena, mas faz toda a diferença, porque desloca a tensão da revelação para as consequências.

Essa escolha funciona ainda melhor graças ao elenco. Marjorie Estiano entrega uma atuação impressionante como Inez, construindo uma protagonista que nunca pede a simpatia do público. O remorso aparece em detalhes mínimos: um silêncio que dura um segundo a mais, um olhar que evita o contato direto, uma resposta interrompida antes de terminar. É uma interpretação que entende que culpa raramente faz barulho. Vladimir Brichta acompanha esse nível com um Murilo que poderia ser apenas o adversário da protagonista, mas ganha outra dimensão pela intimidade que os dois personagens ainda compartilham. Os embates jurídicos nunca são apenas profissionais; existe um passado mal resolvido que atravessa cada conversa sem que o roteiro precise explicá-lo o tempo inteiro. Any Gabrielly também surpreende. Vinda da música e da dublagem, ela faz de Marina uma personagem muito mais complexa do que a premissa inicial sugere, encontrando um equilíbrio interessante entre convicção e vulnerabilidade.
Nem tudo funciona com a mesma precisão. Os demais alunos raramente escapam da função de representar diferentes posições dentro da investigação, embora uma colega convencida da culpa de Jonathan seja responsável por alguns dos debates mais interessantes da temporada. Também existem coincidências que exigem certa boa vontade do espectador: o filho de um dos sócios do escritório rival estuda justamente na turma de Inez, um envolvimento amoroso ultrapassa qualquer limite ético razoável e algumas descobertas acontecem exatamente quando a trama precisa avançar. Não chega ao exagero de How to Get Away with Murder, mas às vezes lembra um thriller jurídico que pega emprestado o arroz com feijão da novela das nove.

Ainda assim, a série nunca perde de vista o que realmente importa. O caso de Jonathan abre espaço para discutir violência policial, confissões obtidas sob pressão, procedimentos mal conduzidos e a facilidade com que a classe social determina quem merece o benefício da dúvida. A inspiração no Innocence Project Brasil não está ali apenas como referência; ela dá peso a uma história que poderia facilmente se contentar com reviravoltas processuais. O roteiro até evita mergulhar mais fundo nas contradições éticas dos próprios protagonistas — afinal, Inez e seus alunos também cruzam algumas linhas durante a investigação —, mas essa escolha incomoda justamente porque o restante da série é inteligente o bastante para sugerir discussões ainda maiores.
Esse cuidado aparece também fora da ficção. Os roteiristas acompanharam júris reais, o elenco visitou audiências e parte das gravações aconteceu na Faculdade de Direito do Largo São Francisco durante o período de férias. É um trabalho de pesquisa que nunca vira exibicionismo, mas ajuda a construir uma verossimilhança rara nas produções jurídicas brasileiras.
No fim, Habeas Corpus entende que uma sentença nunca termina quando alguém deixa o tribunal. Ela continua existindo na vida de quem foi condenado, de quem perdeu alguém e também de quem acredita ter feito justiça. É justamente quando olha para essas zonas cinzentas — mais do que para o mistério do caso — que a série encontra sua melhor versão. Mesmo sem explorar todas as possibilidades da própria premissa, entrega um dos thrillers jurídicos brasileiros mais consistentes dos últimos anos, sustentado por um roteiro seguro e por uma Marjorie Estiano em estado de graça.
Habeas Corpus está disponível na Netflix.


