Depois de mais de dez anos longe de um papel que não envolvesse correr, pilotar aviões ou salvar o mundo, Tom Cruise retorna a um cinema completamente diferente em ‘Digger’. Dirigido por Alejandro González Iñárritu, responsável por ‘Birdman’ (2014) e ‘O Regresso’ (2015), o filme coloca uma das maiores estrelas de Hollywood no centro de uma sátira que utiliza justamente sua presença e seu tamanho dentro da indústria para construir um personagem completamente absurdo.
Digger Rockwell (Tom Cruise) é um poderoso empresário do petróleo que se vê diretamente relacionado a uma catástrofe capaz de colocar o planeta em risco. Diante das consequências de suas próprias ações, ele inicia uma jornada tão desesperada quanto absurda para tentar resolver aquilo que ajudou a provocar.

Acho que o primeiro grande acerto de ‘Digger’ está justamente na escolha de Tom Cruise e em como Iñárritu utiliza a imagem que temos do ator. Depois de tantos anos vendo Cruise como o homem que consegue resolver qualquer problema, Digger acredita praticamente na mesma coisa. A diferença é que agora acompanhamos um homem completamente perdido, tentando utilizar dinheiro, influência e poder para controlar uma situação que já se tornou muito maior do que ele. O exagero e caricatura – tão criticados por críticos estadunidenses e colegas brasileiros -, fazem parte disso e está em praticamente tudo, desde a atuação de Cruise até a maneira como os personagens conversam e reagem ao que está acontecendo, se expandindo para os cenários e fotografia.
A câmera está quase sempre inquieta, brincando com os espaços, com os rostos e principalmente com a dimensão de Digger dentro daquele mundo. Quanto mais ele tenta assumir o controle, mais absurdo tudo parece ficar. Em alguns momentos utilizando até da linguagem teatro, com personagens que não parecem apenas conversar, mas performar uns para os outros. E isso funciona principalmente porque estamos falando de pessoas preocupadas com a imagem que estão construindo diante daquela situação.
Essa construção é toda bem interligada com a drama pessoal de Curtis, também Tom Cruise, mas que está atuando como Digger Rockwell e sobre o possível acidente da sua filha. Acaba sendo uma conversa íntima sobre arte, sobre turbulência, sobre política e sobre o status atual mundial. É uma explosão de situações e acontecimentos em uma peça de teatro, que atua sobre a vida real, em que a vida real também é tão absurda como uma peça de teatro.
Por outro lado, acho que Iñárritu exagera justamente no exagero no último ato do longa. Existem momentos em que a sátira funciona muito bem através de uma imagem, de uma situação absurda ou simplesmente da presença de Cruise, mas em outros o filme parece precisar explicar a própria piada, como ocorre no final. A crítica ao capitalismo, à crise climática, ao ego e às pessoas extremamente poderosas está sempre muito evidente. Quando ‘Digger’ confia na imagem e no absurdo, acho que funciona muito mais do que quando tenta transformar tudo isso em discurso.
No fim, ‘Digger’ é um filme propositalmente exagerado, estranho e até cansativo em alguns momentos, mas que encontra em Tom Cruise sua melhor ideia. Iñárritu nem sempre sabe a hora de parar, mas constrói uma sátira interessante sobre um homem que acredita ter poder suficiente para controlar tudo ao seu redor, até perceber que algumas consequências simplesmente não podem ser compradas.


