Abertura do festival AnimaMedo, inspirado nos acontecimentos da Colônia Dignidad, comunidade alemã estabelecida no Chile e marcada por episódios de violência, abuso e repressão durante a ditadura de Augusto Pinochet, ‘A Casa Lobo’ (2018) é uma animação chilena dirigida por Cristóbal León e Joaquín Cociña. Utilizando técnicas de stop-motion, pintura e escultura, os diretores constroem uma experiência de terror psicológico que mistura elementos dos contos infantis com a memória de um dos períodos mais violentos da história chilena.
Acompanhamos Maria, uma jovem que foge de uma comunidade alemã e encontra abrigo em uma casa isolada na floresta. Enquanto tenta se proteger de um misterioso lobo que parece persegui-la, ela passa a conviver com dois porcos que se transformam em crianças, Pedro e Ana. Entretanto, aquilo que inicialmente parecia ser um refúgio começa a se transformar em um ambiente cada vez mais ameaçador.
Existe uma palavra que ficou comigo durante praticamente todo o filme: resistência. Maria está constantemente tentando resistir a alguma coisa, seja à presença do Lobo, ao ambiente que parece consumi-la ou até mesmo às duas figuras que ela própria criou e que, em determinados momentos, também passam a ameaçá-la. É interessante como essa tentativa de proteção vai se transformando em um aprisionamento, principalmente porque a casa deixa de funcionar apenas como um espaço físico e passa a representar os próprios sentimentos e medos da personagem. Maria tenta fugir de algo maligno, mas esse mal parece continuar presente em tudo aquilo que ela constrói.

E acho que o maior acerto de ‘A Casa Lobo’ está justamente na maneira como os diretores utilizam a animação para desenvolver essa ideia. As paredes ganham vida, os personagens se desfazem e se transformam, enquanto a câmera percorre os ambientes sem oferecer muito espaço para o espectador respirar. Existe uma relação bastante sensorial entre o stop-motion e o terror psicológico, principalmente porque nada naquele universo parece possuir uma forma definitiva. A casa está constantemente se modificando, assim como Maria, e essa instabilidade cria uma sensação de claustrofobia que vai muito além da escuridão ou das imagens perturbadoras. É como se estivéssemos acompanhando uma memória sendo reconstruída diante dos nossos olhos, mas uma memória que não consegue escapar da violência que a originou.
A relação com a Colônia Dignidad também torna essa experiência ainda mais complexa. O Lobo não precisa necessariamente existir como uma ameaça física para continuar exercendo poder sobre Maria. Sua presença está nas regras, nos comportamentos e principalmente no medo que a personagem carrega consigo. Mesmo tentando resistir àquilo que a violentou, Maria acaba reproduzindo parte dessa violência na maneira como se relaciona com Pedro e Ana. A resistência começa a envolver também a dificuldade de romper com aquilo que foi aprendido.
Acredito que os momentos mais fortes da obra sejam aqueles em que o terror é explorado de maneira mais psicológica, quando a imagem consegue transmitir algo que os diálogos não precisariam explicar. O clímax funciona especialmente por reunir essa jornada de resistência e o conflito com o Lobo, que acaba representando algo muito maior do que uma figura ameaçadora. É uma metáfora para um mal que permanece mesmo depois da fuga, que se transforma e encontra diferentes maneiras de continuar existindo.
‘A Casa Lobo’ é uma experiência de animação bastante singular, principalmente pela maneira como transforma sua própria técnica em parte da narrativa. Cristóbal León e Joaquín Cociña constroem um terror sobre memória, violência e resistência, em que escapar fisicamente de um lugar não significa necessariamente conseguir abandonar aquilo que ele deixou dentro de nós.


