Nunca entendi por que insistem em vender os Lanternas Verdes como uma das mitologias mais complicadas dos quadrinhos. Estamos falando de uma tropa de policiais intergalácticos escolhidos por anéis movidos à força de vontade, supervisionados por seres imortais e obrigados a recarregar seu equipamento numa lanterna, como quem procura desesperadamente uma tomada quando o celular chega aos 2%. Evidentemente, há muito mais coisa envolvida, mas tentar explicar tudo antes de contar uma história costuma ser uma excelente maneira de afastar quem não passou a adolescência decorando enciclopédias da DC. Lanternas, felizmente, poupa o público desse trabalho e encontra uma saída bastante esperta: transformar uma aventura cósmica num thriller policial ambientado numa cidadezinha do Nebraska.
A trama acompanha Hal Jordan (Kyle Chandler), veterano da Tropa dos Lanternas Verdes, e John Stewart (Aaron Pierre), seu aprendiz e provável sucessor, numa investigação envolvendo mortes suspeitas, possíveis extraterrestres e uma comunidade que parece ter feito um pacto coletivo para esconder alguma coisa. A narrativa se divide entre 2016 e 2026, acompanhando tanto o treinamento conturbado de John quanto as consequências de uma missão que deixou estragos suficientes para assombrar os envolvidos uma década depois. A atmosfera lembra True Detective, com uma pitada de Slow Horses na dinâmica entre os protagonistas. Troque os detetives traumatizados por dois sujeitos capazes de materializar objetos com a imaginação e temos uma ideia razoável do que esperar.
Kyle Chandler parece se divertir particularmente com a oportunidade de interpretar Hal como um homem que passou tanto tempo sendo indispensável que considera a própria aposentadoria uma ofensa pessoal. Arrogante, debochado e frequentemente insuportável, ele trata John com a delicadeza de um chefe obrigado a treinar o funcionário que vai substituí-lo. Chandler encontra graça nesse comportamento sem tentar justificar cada grosseria, e o resultado é um personagem que consegue ser irritante e divertido na mesma proporção. Confesso que não esperava gostar tanto de alguém cuja principal habilidade, além de salvar planetas, parece ser testar a paciência alheia.
Aaron Pierre, por sua vez, tem uma tarefa menos espalhafatosa e talvez mais difícil. John Stewart foi criado para acreditar que precisava estar preparado para assumir uma responsabilidade extraordinária, e essa disciplina aparece em cada movimento. O ator consegue transmitir uma tensão permanente mesmo quando o personagem está aparentemente tranquilo. Há uma rigidez quase desconfortável na maneira como John se comporta, resultado de uma vida inteira tentando corresponder a expectativas que começaram muito antes de ele ter idade para questioná-las. A relação com a mãe, Bernadette (Jasmine Cephas Jones), ajuda a explicar esse comportamento. Ela criou o filho para enfrentar um mundo que dificilmente lhe ofereceria as mesmas oportunidades concedidas a outros homens, embora seus métodos educacionais certamente rendessem uma conversa bastante desagradável com o Conselho Tutelar.
A relação entre Hal e John sustenta boa parte dos oito episódios. Os dois discutem, provocam um ao outro e discordam até sobre a maneira correta de conduzir uma investigação. Algumas dessas trocas são genuinamente engraçadas, especialmente quando Hal resolve tratar situações potencialmente catastróficas como pequenos inconvenientes administrativos. A química entre Chandler e Pierre permite que o roteiro explore a rivalidade sem transformar o veterano num vilão ressentido ou o aprendiz num exemplo ambulante de virtude. Ambos têm defeitos consideráveis, e a convivência acaba revelando muito mais sobre eles do que qualquer discurso solene sobre o dever de proteger o universo.

Rushville também merece atenção. A cidade reúne o tipo de comunidade em que todo mundo conhece a vida alheia, mas ninguém parece disposto a contar a verdade sobre a própria. Will Macon (Garret Dillahunt), magnata local com interesses bastante particulares, e a xerife Kerry Cane (Kelly Macdonald) ajudam a sustentar essa atmosfera de desconfiança. Poorna Jagannathan, como Zoe Macon, acrescenta uma presença intrigante à conspiração, especialmente quando a história começa a revelar a dimensão de seu envolvimento com os acontecimentos. Macdonald ganha espaço conforme as duas linhas temporais se aproximam, e a série encontra nessas relações uma boa maneira de mostrar como uma cidade inteira pode carregar as consequências das decisões de poucas pessoas.
O problema é que nem sempre a investigação acompanha a qualidade dos personagens. Algumas revelações demoram tanto a chegar que a sensação de mistério começa a se confundir com a de enrolação, e há episódios em que o roteiro parece excessivamente satisfeito em guardar informações que já poderia compartilhar. Também senti falta de um pouco mais de imaginação visual. Entendo a proposta de aproximar os Lanternas de um universo mais realista, mas estamos falando de personagens capazes de criar praticamente qualquer coisa com seus anéis. Reduzir tanto esse potencial às vezes parece uma decisão tomada por alguém que olhou para a planilha de efeitos especiais e resolveu abraçar o minimalismo como filosofia artística.
Ainda assim, a escolha de concentrar a temporada na formação de John Stewart rende uma discussão interessante sobre sucessão e identidade. Hollywood já transformou a passagem de um manto heroico numa espécie de cerimônia obrigatória, geralmente acompanhada de discursos emocionados e alguma trilha sonora disposta a fazer metade do trabalho. Lanternas dedica mais tempo às consequências dessa herança. John cresceu sabendo que poderia ocupar o lugar de Hal, mas assumir o anel também significa confrontar tudo o que aprendeu sobre coragem, autoridade e a necessidade de nunca demonstrar fraqueza. A condição de um homem negro preparado desde a infância para conquistar um espaço historicamente ocupado por outro homem dá uma dimensão particular a essa trajetória.
O desfecho recompensa boa parte dessa construção. A decisão de John de incorporar o medo à própria compreensão do que significa ser um Lanterna Verde, inclusive modificando o juramento tradicional, pode incomodar fãs mais apegados à mitologia original. Para mim, funciona justamente porque nasce das experiências do personagem ao longo da temporada. Aaron Pierre conduz essa transformação com uma segurança impressionante, sem precisar abandonar a contenção que definiu sua atuação desde o começo. É um daqueles raros momentos em que uma mudança importante nos quadrinhos adaptados para a televisão parece ter sido pensada para servir à história, e não apenas para provocar discussão na internet.
Depois de tantos altos e baixos nas adaptações da DC, é agradável encontrar uma produção que não parece desesperada para anunciar a próxima grande ameaça ao universo. Lanternas tem problemas de ritmo, economiza mais espetáculo do que eu gostaria e por vezes leva a própria seriedade longe demais. Mas a investigação prende, o elenco funciona e a trajetória de John Stewart oferece uma recompensa emocional que justifica a viagem até Nebraska. Quem esperava oito episódios de batalhas intergalácticas talvez saia reclamando da falta de luz verde. Eu terminei bem mais interessada em acompanhar o que Aaron Pierre fará com o anel daqui para frente. E, considerando o histórico cinematográfico desse acessório, já é uma vitória considerável.
Lanternas está disponível na HBO Max.


