
No romance de Robert Louis Stevenson, a mãe de Jim Hawkins aparece nas primeiras páginas e depois sai de cena para o garoto poder ir atrás do tesouro. Na série da MGM+, ela fica com o mapa e com quase todas as cenas de espada. Jim, um dos jovens aventureiros mais conhecidos da literatura, passa boa parte do tempo seguindo a mãe e esperando alguma coisa acontecer. Uma decisão bastante peculiar para uma história que, até onde me lembro, deveria ser sobre ele.
Criada por Robert Murphy, a adaptação transporta a trama para 1788 e acrescenta uma novidade que Stevenson provavelmente não teria imaginado nem depois de uma garrafa inteira de rum: Jim (Tom Sweet) possui memória fotográfica. Sua mãe, Bess (Hayley Atwell), explora a habilidade na estalagem da família, desafiando clientes bêbados a apostar contra a capacidade do filho de memorizar trechos da Bíblia. Quando o mapa do Capitão Flint acaba destruído, o garoto se torna a única pessoa capaz de reproduzi-lo. O problema é que o roteiro parece confundir essa utilidade com personalidade. Jim passa os primeiros episódios servindo como um mapa ambulante, acompanhado de movimentos de câmera e efeitos sonoros que tentam transformar o ato de lembrar alguma coisa num acontecimento extraordinário. Eu também consigo me lembrar de informações importantes, mas ninguém achou necessário girar uma câmera ao redor da minha cabeça.
Hayley Atwell assume o protagonismo com a energia habitual, embora nem ela consiga fazer muito com uma personagem que parece acumular funções conforme a conveniência do episódio. Bess é mãe, viúva, aventureira e interesse romântico, além de encontrar tempo para se envolver em conflitos que pouco acrescentam à busca pelo tesouro. A ampliação de seu papel poderia oferecer uma perspectiva interessante sobre a história original, especialmente sobre a relação com o filho. Só que a série dedica tanto tempo às suas aventuras amorosas e aos seus confrontos que Jim praticamente desaparece. Atwell faz o possível para dar alguma vida à personagem, mas entusiasmo não substitui desenvolvimento. Billy Bones (Tomer Capone), por sua vez, surge com um sotaque francês tão carregado que acompanhar seus diálogos exige uma concentração que eu preferia reservar para a investigação do mapa.
David Oyelowo é a melhor coisa que acontece nessa viagem. Seu Long John Silver tem a presença ameaçadora, a malícia e o carisma necessários para convencer qualquer pessoa a embarcar num navio de procedência duvidosa. Oyelowo domina as cenas com uma facilidade que chega a ser constrangedora para o restante da produção, especialmente quando o roteiro lhe permite explorar a relação com Jim. Há algo genuinamente interessante na maneira como Silver alterna intimidação e afeto, deixando o garoto sem saber se encontrou um mentor ou alguém que pretende traí-lo na primeira oportunidade. É uma dinâmica que poderia sustentar boa parte dos seis episódios. Infelizmente, a série tem outros compromissos, incluindo um romance com Aaron Graham (Jack Huston) e uma quantidade considerável de intrigas que parecem ter embarcado no navio errado.
A ambientação histórica também abre espaço para discussões sobre escravidão, colonialismo e as tensões políticas que antecedem a Revolução Francesa. São temas relevantes, sobretudo quando Long John Silver passa a ser interpretado por um ator negro, mas o roteiro raramente demonstra interesse em desenvolvê-los além do necessário para conferir gravidade à narrativa. A busca de Silver por liberdade, por exemplo, poderia acrescentar complexidade à relação com os demais personagens e às escolhas que faz durante a viagem. Em vez disso, as questões surgem, recebem alguma atenção e logo cedem espaço à próxima complicação. A série parece convencida de que mencionar um acontecimento histórico já é suficiente para explorá-lo. Se fosse assim, minhas aulas de história teriam sido consideravelmente mais curtas.
A situação melhora quando uma reviravolta finalmente devolve Jim ao centro da história. Tom Sweet ganha a oportunidade de interpretar um adolescente assustado, desconfiado e cada vez mais consciente de que os adultos ao seu redor têm interesses pouco confiáveis. Sua relação com Silver se torna mais complexa, e a aventura encontra parte da tensão que faltava anteriormente. O problema é que essa mudança chega tarde. Depois de passar metade da temporada reduzido à própria memória fotográfica, Jim precisa conquistar em poucos episódios uma profundidade que o roteiro deveria ter construído desde o início. É especialmente irritante perceber que a série funciona melhor quando permite que o protagonista do livro seja, imagine só, o protagonista da adaptação.
Também não ajuda a insistência numa estética sombria que parece acreditar que uma aventura adulta precisa ser permanentemente suja, violenta e mal iluminada. As sequências de ação são prejudicadas por uma montagem pouco envolvente e por efeitos digitais de sangue que tornam os confrontos mais artificiais do que brutais. Há momentos em que a produção parece tão preocupada em se distanciar do imaginário clássico dos piratas que esquece o prazer de acompanhar uma boa história de traição, perigo e descoberta. Não precisava transformar tudo numa aventura infantil, evidentemente, mas também não era necessário tratar cada cena como se alguém tivesse proibido a tripulação de se divertir.
O mais frustrante é que A Ilha do Tesouro tinha material suficiente para justificar suas mudanças. A presença maior de Bess, os conflitos políticos e uma abordagem diferente de Silver poderiam renovar a história de Stevenson sem comprometer o amadurecimento de Jim. Só que essas ideias competem entre si, e poucas recebem o desenvolvimento necessário para tornar a viagem interessante. Oyelowo merece todos os elogios, Atwell trabalha com o que recebe e Sweet melhora consideravelmente quando finalmente lhe dão alguma coisa para interpretar. Ainda assim, seis episódios são tempo demais para uma aventura que demora tanto a encontrar seu rumo. Quando finalmente chegamos à ilha, eu já estava considerando seriamente a possibilidade de ter me jogado no mar.
A Ilha do Tesouro estreou em 11 de outubro no MGM+.


