
Não sei em que momento os personagens de A Diplomata decidiram que roubar uma arma nuclear russa e deixar o planeta a um mal-entendido de distância de uma guerra eram problemas administráveis, mas admiro a confiança. O detalhe é que quase todo mundo encarregado de resolver a crise ajudou a criá-la, e alguns são casados entre si. As reuniões de família devem ser maravilhosas.
A temporada parte do fim da terceira, quando Kate Wyler (Keri Russell), embaixadora americana no Reino Unido, descobre que o marido, Hal (Rufus Sewell), hoje vice-presidente, e a presidente Grace Penn (Allison Janney) retiraram uma arma nuclear de um submarino russo afundado em águas britânicas. A descoberta ameaça a relação entre Washington e Londres, deixa o primeiro-ministro Nicol Trowbridge (Rory Kinnear) numa posição delicada e obriga Kate a administrar consequências que ninguém parece disposto a assumir.

A série sempre tratou a diplomacia como trabalho de gente brilhante e falha, e aqui o conflito pessoal deixa de ser intervalo entre crises: o jeito como cada um se relaciona define como exerce o poder e até onde está disposto a ceder. Há quem ache que o casamento mais estável dos Wyler esvazia a tensão. Discordo. A briga não acabou, só mudou de assunto. Em vez de discutir quem vai trair ou abandonar quem, agora eles precisam decidir até onde vai a lealdade de um ao outro quando os interesses do casamento entram em conflito com os do país. Considerando o histórico dos dois, talvez fosse mais simples continuar discutindo o divórcio.
Russell e Sewell seguem como o motor da série. Kate entra numa sala, percebe que todos estão prestes a cometer um erro histórico e descobre que o marido ajudou a planejá-lo, e Russell faz a irritação e o cansaço caberem na mesma cena. Sewell mantém Hal charmoso mesmo quando ele não merece, e a vice-presidência dá consequências concretas às decisões dele. Os dois discutem política internacional com a intimidade de quem briga pela louça na pia. A diferença é que, na casa dos Wyler, uma discussão mal resolvida pode acabar envolvendo a OTAN.
Janney faz de Grace Penn uma presidente que quase nunca levanta a voz, e é isso que assusta: as decisões mais duvidosas chegam com explicações tão articuladas que, por alguns segundos, soam razoáveis. A temporada acompanha o poder alterando a percepção que ela tem dos próprios limites, e a atriz é melhor quando deixa escapar pequenas demonstrações de vulnerabilidade por trás da postura presidencial. Grace não precisa se enxergar como autoritária para agir como uma, e Janney encontra o tom exato dessa contradição.

Bradley Whitford, como Todd Penn, interpreta um homem tentando descobrir qual é seu lugar num casamento em que a esposa passou a ocupar o cargo mais poderoso do mundo. A familiaridade entre ele e Janney, que já dividiram a tela em The West Wing: Nos Bastidores do Poder, ajuda a dar ao casal uma intimidade convincente, dessas que carregam anos de afeto e ressentimento sem precisar explicar tudo. Os encontros entre os Penn e os Wyler estão entre os melhores momentos da temporada. Cada casal reconhece no outro alguma coisa que preferiria não examinar muito de perto, e as disputas de poder continuam mesmo quando a conversa deixa de ser oficialmente política.
O elenco de apoio acaba pagando o preço dessa concentração. Stuart (Ato Essandoh) e Eidra (Ali Ahn) recebem menos espaço, embora Essandoh aproveite especialmente bem os episódios finais, quando a série volta a recorrer à sensatez de um personagem cercado por pessoas brilhantes que parecem ter desenvolvido uma alergia coletiva ao bom senso. O núcleo britânico também perde importância, com Rory Kinnear e Aidan Turner em participações menores, enquanto a chegada tardia de Jodie Whittaker traz uma energia bem-vinda.
A trama dificilmente resistiria a uma análise rigorosa de plausibilidade, mas a série já deixou claro que prefere uma boa crise diplomática a uma explicação burocrática convincente. As reviravoltas se acumulam, os episódios terminam em situações cada vez mais complicadas e a vontade de começar o seguinte é quase imediata. Funciona porque as consequências emocionais continuam valendo, mesmo quando os acontecimentos políticos flertam com o absurdo. A temporada também questiona até onde a autoridade institucional pode justificar decisões indefensáveis quando quem as toma acredita estar protegendo o país, uma discussão que encontra ecos desconfortáveis na política atual.
Eu gostaria de dizer que mantive alguma disciplina durante a maratona, mas cada episódio termina praticamente exigindo o próximo. A Diplomata continua entre as produções mais divertidas da Netflix porque tem prazer em ver gente competente fazendo coisas irresponsáveis. Eu não preciso administrar relações internacionais nem dividir a cama com o vice-presidente dos Estados Unidos, então posso aproveitar o caos com a tranquilidade de quem só precisa apertar o botão de próximo episódio.
A Diplomata está disponível na Netflix.


