Algumas relações continuam existindo muito depois de acabarem. Não de forma prática, saudável ou organizada. Permanecem numa frase lembrada de madrugada, num gesto que se aprendeu com o outro ou naquela discussão que, mesmo anos depois, ainda rende argumentos mentalmente. Mother Mary, novo filme de David Lowery, parte dessa sensação para contar uma história sobre fama, criação artística e duas mulheres que aparentemente passaram tempo demais sem conversar e tempo de menos tentando esquecer uma à outra.
Anne Hathaway interpreta Mother Mary, uma estrela pop cuja fama atingiu proporções quase religiosas. Sua imagem pertence a milhões de desconhecidos, suas apresentações funcionam como rituais e cada aparição pública exige uma versão cuidadosamente construída de si mesma. Existe uma mulher por trás de tudo isso, embora nem sempre seja fácil encontrá-la. Mary parece ter passado tanto tempo interpretando Mother Mary que já não sabe muito bem onde termina a personagem e começa a pessoa.
A trama ganha força quando ela procura Sam Anselm (Michaela Coel), estilista responsável por parte da identidade visual que a transformou em ícone. As duas não se falam há anos, mas Mary reaparece no ateliê de Sam pedindo ajuda para preparar um show de retorno. O reencontro carrega a energia desconfortável de pessoas que já se conheceram profundamente demais. Há carinho, ressentimento e uma intimidade que nenhuma das duas conseguiu abandonar completamente. Mary e Sam passaram anos afastadas, o que aparentemente não impediu nenhuma delas de continuar discutindo mentalmente com a outra. Quando finalmente se reencontram, fica evidente que o silêncio não resolveu muita coisa.

Lowery conduz boa parte dessa relação com a intimidade de uma peça teatral. Os diálogos são longos, atravessados por lembranças e acusações que raramente chegam ao ponto principal de imediato. As duas sabem exatamente onde machucar uma à outra, mas também conhecem gestos e vulnerabilidades que ninguém mais parece perceber. Há momentos em que Mother Mary soa como uma conversa interrompida há dez anos, retomada por duas pessoas que ainda discordam sobre o que aconteceu.
Michaela Coel é especialmente boa nesse terreno. Sua Sam transformou parte da mágoa em trabalho, e a atriz encontra maneiras de revelar o ressentimento mesmo quando a personagem tenta parecer indiferente. Um olhar prolongado ou uma resposta aparentemente casual dizem mais do que muitos dos discursos que o roteiro reserva às duas. Coel domina essas cenas sem precisar disputar atenção, construindo uma mulher que ainda sente afeto por alguém de quem talvez tivesse sido melhor manter distância.
Hathaway trabalha numa frequência diferente. Sua Mary parece permanentemente exausta de existir como figura pública, mesmo quando está longe dos palcos. Em alguns momentos, a atriz exagera na hesitação das falas, dando a conversas relativamente simples uma solenidade que nem sempre elas merecem. Ainda assim, sua interpretação encontra força nos movimentos e na maneira como a personagem ocupa os espaços. Mary pode controlar a própria imagem diante de milhares de pessoas, mas parece incapaz de relaxar quando está sozinha com alguém que a conheceu antes de tudo aquilo.
Uma das melhores sequências explora justamente esse desgaste. Mary ensaia uma coreografia sem música enquanto o som dos passos, da respiração e do impacto do corpo contra o chão domina a cena. Sem iluminação grandiosa ou uma plateia para aplaudir, a performance perde qualquer aparência de glamour. O esforço físico é quase desconfortável de assistir. Lowery encontra ali uma maneira particularmente eficiente de mostrar o preço de sustentar uma imagem pública, dispensando explicações sobre o sofrimento da personagem.

A relação entre Mary e Sam também ganha outra dimensão a partir dessa ideia de performance. A estilista ajudou a construir a artista que o mundo conhece, mas precisou conviver com as consequências de ver parte do próprio trabalho se tornar inseparável de outra pessoa. Mary, por sua vez, parece incapaz de distinguir o que deve à colaboração artística daquilo que acredita ter conquistado sozinha. O filme encontra seus conflitos mais interessantes nessa mistura de admiração, dependência e ressentimento, especialmente porque nenhuma das duas consegue assumir uma posição inteiramente confortável na história que compartilham.
Visualmente, Mother Mary sustenta essa tensão com bastante personalidade. Os figurinos de Bina Daigeler ajudam a construir uma artista que parece existir entre o palco e o altar, enquanto a fotografia privilegia ambientes frios e espaços amplos que acentuam a solidão das personagens. Há um contraste interessante entre a grandiosidade da imagem pública de Mary e a fragilidade das conversas que ela mantém longe dos holofotes. Quanto mais elaborado o espetáculo, mais evidente se torna a dificuldade de lidar com aquilo que não pode ser ensaiado.
Nem todas as escolhas de Lowery funcionam com a mesma precisão. Conforme a narrativa avança para um território mais simbólico e sobrenatural, algumas questões emocionais acabam perdendo espaço para imagens que parecem exigir mais interpretação do que realmente oferecem. O diretor demonstra tanta confiança na atmosfera que, por vezes, deixa conflitos importantes sem desenvolvimento suficiente. A ambiguidade combina com a proposta, mas nem toda ausência de resposta precisa ser confundida com profundidade.
Ainda assim, há algo bastante envolvente na maneira como Mother Mary aproxima criação artística e intimidade. Sam e Mary compartilham uma história que nenhuma das duas consegue reivindicar completamente, e talvez por isso seja tão difícil deixá-la para trás. O que construíram juntas continua existindo, mesmo depois de a relação ter se desfeito. Lowery entende que uma colaboração pode terminar profissionalmente sem que as pessoas envolvidas consigam se desvencilhar de tudo o que ela significou.
Mother Mary encontra seus melhores momentos quando permite que Hathaway e Coel explorem essa contradição sem transformar cada sentimento numa grande revelação. É um filme irregular, às vezes excessivamente enamorado dos próprios símbolos, mas sustentado por duas interpretações que compreendem o peso de uma intimidade mal resolvida. Algumas pessoas saem da nossa vida e continuam participando dela de maneiras bastante inconvenientes. Mary e Sam tiveram anos para descobrir isso. Pelo visto, ainda não foi tempo suficiente.
Mother Mary está disponível na HBO Max.


