sáb, 24 outubro 2026

Crítica | O Sentido da Vida (All of a Sudden)

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Em um desses momentos chaves da vida moldados pelo acaso, os caminhos de Marie-Lou e Mari Morisaki se cruzam, fazendo surgir, quase instantaneamente, um inesperado e intenso vínculo entre essas duas mulheres. Marie é diretora de um lar de cuidados paliativos para pacientes em seus últimos dias – a maioria idosos com alguma doença degenerativa. Mari é uma dramaturga japonesa em turnê pela França, diagnosticada com câncer terminal.

Marie tenta implementar no hospital onde trabalha um novo método de cuidado chamado “humanitude”, com foco, como o próprio nome sugere, em devolver a humanidade para o tratamento do paciente. Ela acredita em tratar com dignidade mesmo quem já não tem a compreensão plena da realidade a sua volta, mas é confrontada por desafios orçamentários impostos pela alta gerência, além da resistência dos funcionários mais antigos, acostumados a um modelo de trabalho mais pragmático.

A partir desse encontro, as duas engajam em conversas sobre suas vidas particulares até chegarem em temas mais universais. Elas encontram, uma na outra, o conforto trazido pela escuta de alguém disposto a prestar atenção nas suas palavras, por menos aprazíveis que sejam alguns assuntos. A empatia demonstrada nunca soa falsa, tampouco esconde um sentimento de pena. Há, na verdade, um genuíno carinho entre elas.

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Marie estudou um tempo no Japão e Mari, por sua vez, na França. Dessa forma, são fluentes em ambos idiomas e atravessam barreiras comunicativas conversando nas duas línguas, ocasionalmente retornando para sua respectiva língua materna para tratar de assuntos mais delicados, capazes de serem expressados melhor no seu próprio idioma – isso é, inclusive, verbalizado pelo ator protagonista da peça de Mari. Existe algo profundamente tocante na simplicidade de vê-las trocando de idiomas. Em uma cena particularmente bonita, na qual estão rodeadas por franceses, elas conversam em japonês, não para excluir os demais, e sim para deixar aquela troca apenas entre as duas, tornando-a especial.

Quando as palavras fluem tão naturalmente, o passar das horas se torna imperceptível e uma conversa iniciada em um fim de tarde se estende noite a dentro. A necessidade fisiologia de dormir quase se torna um inconveniente, tamanha a vontade de passar mais tempo comungando com aquela pessoa. E assim, enquanto temos a honra de escutá-las, acompanhamos o céu crepuscular escurecer até a madrugada. Em outra ocasião, do outro lado do globo, vemos o céu assumir as cores da manhã, conforme a aurora se transmuta em dia.

Apesar de ser ambientado na atualidade, quase não vemos celulares enquanto elas passam tempo juntas, tão imersas encontram-se naquele instante, a ponto de concentrarem-se suas atenções uma na outra, silenciando, brevemente, o mundo ao redor. O ato de poder falar sem pudores, sentindo-se devidamente escutada pelo seu interlocutor e, ao mesmo tempo, dispor-se a escutá-lo, tem um poder transformador na vida dessas mulheres, com mudanças perceptíveis ao longo da narrativa. É como se, tocadas por essa união, conseguissem enxergar o mundo com mais clareza, através do conhecimento e afeto compartilhado.
Há muita especulação quanto a natureza do inegável amor que sentem, seria ele romântico? Ou seria “meramente” fraternal? Pessoalmente, creio ser uma discussão inócua, pertencente às mesas de bares e redes sociais. Não responder frontalmente essa questão é mais um acerto do diretor, afinal nenhuma resposta aumenta, nem diminui a intensidade do sentimento.

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Arthur Gadelha, querido amigo e jornalista do “O Povo”, resumiu essa relação como “um encontro de almas” e, diante da dificuldade em cunhar uma definição melhor, limito-me a parafraseá-lo.

Na contramão dos excessos visuais hollywoodianos com os quais estamos acostumados, Hamaguchi retrata o desabrochar e a consolidação dessa amizade através de uma fotografia sóbria, pontuada por uma quase imperceptível trilha sonora, causando no público a sensação de estar ali com elas presenciando tudo em tempo real. Isso não torna o filme menos cinematográfico, pelo contrário, permite ao diretor, em momentos pontuais, brincar com a iluminação e saturação das cores, ou escalar delicadamente a música, para enfatizar alguns acontecimentos. E não há nada mais inerente à sétima arte do que a manipulação precisa das imagens e do som, não à toa, dá-se a ela o nome de “audiovisual”.

O longa é construído a base de seus diálogos e não se envergonha da verborragia, chegando ao ponto de Mari pegar uma lousa e caneta para explicar os sistemas econômicos de forma descaradamente didática. Nas mãos de um cineasta menos competente, o momento “palestrinha” teria soado pedante, tornando a experiência cansativa. Mas o objetivo ali não era, de fato, destrinchar as nuances do capitalismo e ensinar algo a quem assiste, e sim mostrar como os assuntos evoluíram de seus microcosmos para questões globais, que ao serem compreendidas pelas personagens, irão afetar a maneira como Marie implementa suas ideias no hospital. Hospital esse onde Mari irá se abrigar em seus momentos finais, beneficiando-se do ambiente acolhedor que ajudou a moldar durante a cena “expositiva”. Em uma perfeita simbiose, ambas se ajudam e, na mesma medida, são ajudadas.

Ao desafiar um dos maiores brocardos do cinema, o “show, don’t tell” (mostre, não fale), o realizador demonstra, através de seu domínio técnico, como regras foram feitas para serem quebradas, a depender da habilidade de quem as está quebrando. No momento exato, ele interrompe a cena com bastante bom humor, levando a plateia ao riso e dissipando qualquer resquício de enfado. Se estendesse mais, ficaria cansativo, se cortasse antes perderia o impacto. Cineasta se torna uma espécie de “feiticeiro” controlando o fluxo temporal exato das coisas.
Hamaguchi, assim como sua protagonista, também busca trazer a humanidade para dentro de seu ofício, por meio das telas. Para isso se permite desacelerar o tempo, tal qual no modelo de tratamento proposto por Marie. Afinal a pressa, tão enraizada nas culturas ocidentais modernas, não permite espaço para o desenvolvimento da humanidade verdadeira.

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O Sentido da Vida convida o espectador a desligar-se do mundo por quase três horas e meia, para escutar aquelas mulheres, com o mesmo comprometimento com o qual elas se escutaram, deixando-se tocar por suas histórias.

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
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