qui, 29 outubro 2026

Crítica | London

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“Você me olha, por quê?” Lá pelas tantas da narrativa o protagonista, um homem queer PCD, se questiona a respeito dos olhares voltados a ele, seriam todos de pena e incomodo ou seu corpo também merece ser desejado? Nessa mesma oportunidade ele e a amiga pontuam como suas figuras parecem atrair atenção demasiada, como se estivessem sob as luzes de um holofote e, ao mesmo tempo, serem invisíveis perante a sociedade.

Um dos pontos mais altos do filme é justamente a forma como lida com esses olhares, a existência de uma câmera, por si só, já os coloca em evidência, mas agora estão no controle de suas próprias histórias e escolhem como conta-las, tomando para si o protagonismo que tipicamente lhes é negado pelo cinema dito convencional, a partir de uma visão humanizadora, sem relega-los ao papel de vítima, nem transformá-los em exemplos de superação, afinal a deficiência (e a sexualidade também) não é algo a ser superado, é a sociedade quem precisa superar seus enraizados preconceitos.

As escolhas de iluminação exercem um importante papel narrativo para ilustrar como o personagem se sente ao ser visto, a luz do dia é “ardida”, estourada e desagradável aos olhos. Já as luzes noturnas, em especial as dos inferninhos frequentados por ele, são intensas e convidativas, carregando em seus tons neons os desejos que só se permitem ganhar vida com o cair da noite. Nesses ambientes, corpos marginalizados se abraçam e deixam aflorar seus mais íntimos fetiches, a mesma prótese rejeitada durante o dia, se transforma um instrumento de prazer.

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Ao explorar a entrega sexual, a dupla de diretores se torna tão livre quanto seu protagonista, permitindo-se experimentar sensorialmente, seja através do uso de negativos ou por meio das sensações hápticas causadas por um plástico filme em contato com a pele humana. Os sons dos beijos, dos toques, dos gemidos e das respirações ofegantes se mixando com a música do local.
A obra mescla esses momentos criativos e sensoriais com uma abordagem mais tradicional, quando aborda frontalmente suas temáticas, não conseguindo se esquivar por completo de diálogos expositivos. Felizmente, a entrega do ator é tão comprometida a ponto de transformar a verborragia das cenas palestrinhas em algo natural, ao finalmente expor o grito guardado na garganta, os sentimentos por trás de suas expressões quebram o didatismo, deixando a mensagem transmitida ainda mais potente. Com isso, o público não se sente ensinado, mas sim convidado a compartilhar de uma emoção verbalizada.

O protagonista não quer se forçar a conhecer seu diagnóstico, por rejeitar a ideia de ser definido por um rótulo limitante, do mesmo modo encara também sua sexualidade tão fluída quanto seus desejos, sem precisar virar uma questão a ser confrontada. Assim é também o filme, um drama não necessariamente convencional, livre para explorar sentimentos e formas. Nem sempre tudo é perfeito, mas a vida tampouco o é e há beleza nessa inconstância.

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
“Você me olha, por quê?” Lá pelas tantas da narrativa o protagonista, um homem queer PCD, se questiona a respeito dos olhares voltados a ele, seriam todos de pena e incomodo ou seu corpo também merece ser desejado? Nessa mesma oportunidade ele e a...Crítica | London