
É nítido no novo filme de Carlos Saldanha, 100 Dias, seus bons anos dirigindo animações sendo transportados com sua nova história. O filme propositadamente insere uma ingenuidade e aposta demais nas frases prontas e com um cunho mais inocente da jornada. Ele busca bastante enaltecer e homenagear a figura de Amyr e assim costura sua jornada pelo atlântico.

Sozinho em um pequeno barco, Amyr Klink desafia o Atlântico Sul a remo e escreve uma história que nunca havia sido tentada. A travessia entre a África e o Brasil se transforma em uma batalha contra o medo, a solidão e os próprios limites. Enquanto o corpo resiste ao mar, a mente enfrenta memórias, conflitos familiares e escolhas que moldaram quem ele é. Mais do que cruzar um oceano, Amyr precisa atravessar a si mesmo.
Lembra bastante uma mistura da “Até o Fim” na luta pela sobrevivência e solidão e em outros momentos lembra “As Aventuras de Pi” talvez pela relação do homem com a natureza e um lúdico apostado por Saldanha na contemplação. Ele se utiliza bem até das limitações de orçamento e os momentos de inserção do digital seja com o ambiente ou os próprios seres marítimos.
O longo carece de um peso dramático que impacte sua história. Existe todo um investimento em tratar essa difícil relação de Amyr com seu pai, e o filme faz questão de retratar isso como um motivo gigante para ele realizar o percurso. Mas a relação acaba ficando mais caricata e sem aprofundamento ou pelo menos algo mais natural e menos novelesco.

Essa decisão do filme possuir uma linguagem mais ingênua e cartunesca acaba tirando um impacto maior que o filme poderia causar. Claro que é tudo proposital com sua história, mas não tem muito corpo para se conectar aqui, mesmo o feito de Amyr sendo impressionante, o longa não parece apostar tanto nessa jornada. Até passagens que revelam mais da personalidade egoísta ou prepotente de Amyr com pessoas que o ajudaram são interessantes para seu desenvolvimento, mas nunca de fato são trabalhadas em uma superação ou autocrítica.
E os momentos de Filipe Bragança são agradáveis não só em uma entrega física e bem costurada com seu trajeto, sejam por ferimentos, insolação ou seus cuidados de higiene limitadas. Mas também a contemplação da solidão, principalmente ao chegar perto da costa do Brasil, onde existe um tom bem apurado e talvez o momento mais bonito do filme, muito por conta da atuação de Filipe.
100 Dias deixa o impacto da jornada de Amyr mais inofensivo e protocolar. Saldanha aposta em sua carga dirigindo animações e mistura momentos que funcionaram mais para eles do que abertamente em um live-action. Os conflitos não ganham traços tão marcantes com a história justamente por apostar muito nesse vai e vem mal executado do drama familiar. De todo modo, é uma boa homenagem com o feito e um entretenimento aceitável.


