O Recife tem uma relação bastante particular com seus rios. Construímos pontes sobre eles, despejamos o que não queremos ver em suas águas e, de vez em quando, lembramos que os manguezais continuam vivos debaixo de toda essa cidade. Há alguma poesia nisso, embora nem sempre seja uma poesia muito agradável. Em A Margem do Rio, Enock Carvalho e Matheus Farias encontram nesse cenário um lugar onde desejo, medo e sobrenatural podem coexistir. O problema é que, quando o filme parece prestes a descobrir alguma coisa fascinante nas águas do Capibaribe, resolve voltar para uma discussão que o cinema brasileiro já conhece bastante bem.
A história acompanha Izaquiel (Caique Copque), um jovem negro e gay que trabalha como auxiliar de serviços gerais e encontra nos manguezais recifenses um espaço para encontros sexuais clandestinos. É ali que conhece Jeremias (Ítalo Martins), um pescador misterioso cuja relação com o rio parece ultrapassar aquilo que a biologia costuma permitir. Durante o dia, Izaquiel precisa lidar com as imposições de uma instituição religiosa comandada pelo pastor Eurico (Robério Diógenes), enquanto à noite descobre uma liberdade que vem acompanhada de perigos bastante concretos.
É justamente nessa vida noturna que o longa encontra suas imagens mais bonitas. A fotografia de Luciana Baseggio transforma a luz do luar em algo quase palpável, fazendo a pele dos atores brilhar como se alguém tivesse espalhado glitter sobre seus corpos. O erotismo não aparece apenas como provocação, mas como parte da construção de um território onde aqueles homens podem desejar sem pedir licença. E é bom ver o cinema brasileiro abrindo cada vez mais espaço para o desejo gay sem a obrigação de transformá-lo imediatamente em culpa ou tragédia.
Jeremias, particularmente, parece pertencer a outra história, uma que eu gostaria bastante de ter acompanhado. Seus olhos assumem tonalidades diferentes durante os encontros íntimos, sua relação com a água desafia explicações e há uma naturalidade desconcertante na maneira como mergulha no rio e retorna com um peixe, como se tivesse acabado de buscar alguma coisa na cozinha. Até seus adornos parecem carregar significados que o filme prefere não esclarecer. É possível enxergar ali referências às espiritualidades de matriz africana, embora associá-lo especificamente a uma divindade seja uma interpretação, não uma resposta oferecida pela narrativa. E essa ambiguidade funciona maravilhosamente.

O problema começa quando percebemos que o filme tem dois caminhos diante de si e demonstra muito mais interesse pelo menos surpreendente deles. A crítica à instrumentalização da fé, ao conservadorismo e à influência de instituições religiosas sobre os corpos LGBTQIAP+ é pertinente, especialmente num país em que religião e poder político frequentemente dividem a mesma mesa. Mas a hipocrisia do líder religioso que condena publicamente aquilo que sua comunidade pratica ou deseja em segredo já foi explorada tantas vezes que exige alguma perspectiva nova para continuar provocando. Aqui, o pastor Eurico é ameaçador, muito graças à atuação de Robério Diógenes, mas sua presença acaba conduzindo a narrativa por conflitos previsíveis.
E é uma pena, porque estamos falando de um filme chamado A Margem do Rio. Não Os Pecados do Pastor Eurico, embora certamente houvesse material para isso. O Recife dos pescadores, das águas escuras, das histórias transmitidas entre gerações e das encantarias oferece um universo cinematográfico riquíssimo. Farias e Carvalho demonstram saber filmá-lo, mas parecem menos interessados em investigar suas possibilidades do que em retornar às estruturas de opressão que já conhecemos. O misticismo, que poderia organizar a narrativa e conferir outra dimensão ao confronto entre desejo e violência, termina funcionando mais como uma promessa do que como uma exploração plenamente desenvolvida.
Essa indecisão também compromete o ritmo. Algumas sequências se prolongam sem acrescentar muito à construção dos personagens ou à tensão que o filme tenta estabelecer. A visita de Izaquiel aos pais e determinadas passagens pela boate, por exemplo, parecem ocupar um espaço desproporcional àquilo que efetivamente oferecem à narrativa. Não é uma questão de exigir acontecimentos a cada minuto. O próprio manguezal demonstra como a contemplação pode ser envolvente quando há algo sendo construído pela imagem. Mas existe uma diferença considerável entre permitir que uma cena respire e simplesmente demorar para encerrá-la.
Ainda assim, A Margem do Rio possui qualidades difíceis de ignorar. A química entre Copque e Martins sustenta boa parte do interesse pela história, enquanto a fotografia encontra beleza em espaços que frequentemente aparecem no imaginário urbano apenas associados à precariedade e ao abandono. Há também uma sensibilidade genuína na representação dos vínculos afetivos que Izaquiel constrói fora das instituições que tentam discipliná-lo.
Talvez minha maior frustração seja perceber que Farias e Carvalho tinham nas mãos os elementos para realizar algo bastante singular. Quando o luar encontra a pele, quando Jeremias desaparece nas águas ou quando o mangue parece esconder alguma presença antiga, o filme alcança uma força que suas discussões mais convencionais dificilmente reproduzem. O Recife já tem igrejas suficientes tentando explicar como as pessoas devem viver. No cinema, seria bom deixar que seus rios contassem algumas histórias também.
Filme assistido em 30 de outubro de 2026, durante a 17ª edição da Janela Internacional de Cinema do Recife, no Cinema São Luiz. A Margem do Rio, dirigido por Enock Carvalho e Matheus Farias, tem estreia comercial prevista para 7 de janeiro de 2027.


