Bom Garoto (Heel) acompanha Tommy, um jovem infrator de 19 anos acostumado a uma vida de festas, drogas e violência. Após ele ser sequestrado por uma familia misteriosa composta por Chris, sua esposa Kathryn e o filho de ambos, o rapaz passa a ser submetido a um violento e invasivo processo de “reabilitação” para corrigir seu comportamento indisciplinado.
É interessante quando uma premissa, que de início beira o clichê de explorar falsos moralismos e a relação “vítima x agressor”, revela-se ser muito mais que a simplicidade apresentada, transformando o argumento de “certo e errado” em uma verdadeira máquina de reflexões sobre os temas apresentados pela trama e os que estão nas entrelinhas de um roteiro bem escrito e disposto a não se contentar com o óbvio. Bom Garoto (tomem cuidado para não se confundir com o terror norueguês de mesma tradução, lançado em 2022) parece ser uma produção convencional onde a “vítima”, sendo aqui um delinquente juvenil preconceituoso e irresponsável pelos seus atos, precisa lutar para sobreviver ao cárcere e aos abusos de seus sequestradores, uma família “tradicional” que se mostra disfuncional em todos os aspectos.
A questão principal, e que o roteiro de Naqqash Khalid e Bartek Bartosik faz questão de evidenciar rapidamente a fim de romper com a conveniência da pena e da injustiça, é que o personagem Tommy (interpretado por Anson Boon) não é vítima, nem mesmo um protagonista passando por castigos e constrangimentos, assim como também seu punidor, Chris (vivido pelo veterano Stephen Graham), está atuando como um defensor de ideologias individuais utilizando falsos moralismos e comportamentos passivo-agressivos.

Em Bom Garoto, a direção de Jan Komasa é ousada ao demonstrar os comportamentos extremos de Tommy e de Chris e sua família com evidentes contrastes. Enquanto o jovem é retratado de forma animalesca e brutal, mesmo quando não está acorrentado no porão, seus sequestradores estão quase que distantes da crueldade explícita, exceto quando o pai castiga o delinquente encarcerado em uma sequência de violência gráfica e psicológica de revirar o estômago. As personagens da mãe, Kathryn, e do filho, Jonathan, interpretados respectivamente pelos ótimos Andrea Riseborough e Kit Rakusen, também surpreendem ao se revelarem mais do que aquilo que foram apresentados com outrora superficialidade. Até mesmo a personagem da funcionária da residência da família, Kathrina (Monika Frajczyk), é apresentada com o estereótipo do comportamento de quem repudia a atitude doentia dos novos patrões, mas, por chantagens envolvendo o fato dela ser refugiada, é forçada a mudar de personalidade.
Não preocupado em dar explicações diretas, Bom Garoto prefere utilizar lapsos momentâneos voltados para os temas do luto, o controle e o arrependimento para esclarecer o que se passa em cena, ora cuidadoso, ora descuidado a ponto de parecer que o filme normaliza e até romantiza a violência. Há passagens problemáticas que nos fazem deduzir que Tommy cairá no Complexo de Estocolmo, mesmo sendo submetido a terapias de abuso psicológico de nível semelhante ao Tratamento Ludovico do clássico Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick.
Infelizmente, são essas inconveniências na narrativa que geram um estranhamento nas ideias sugeridas pelo longa de Jan Komasa, a ponto de impactar diretamente seu desfecho. O subentendimento do sentido do filme e a sua inevitável romantização da violência psicológica acabam entrando em contradição com a própria proposta da obra e suas boas temáticas.
Com um elenco afiado e uma direção de estilo autêntico e boas ideias, Bom Garoto, no entanto, se estende a ponto de cair em armadilhas que a sua própria premissa procurou se esquivar.


