Tenho uma relação bastante amigável com as artes. Choro no cinema, fico arrepiada com determinadas músicas e sou perfeitamente capaz de passar vários minutos observando uma coreografia sem precisar que alguém me explique o que cada movimento significa. Gosto da ideia de que nem tudo precisa ser compreendido imediatamente para provocar alguma coisa. Dito isso, saí de Cão sem Plumas com a sensação de ter acompanhado uma experiência artística importantíssima para todo mundo envolvido, menos para mim, que passei boa parte da sessão tentando descobrir o que exatamente deveria estar sentindo. Talvez João Cabral de Melo Neto exigisse um pouco mais de mim. Talvez o filme também.
Dirigido por Camila Valença, o documentário acompanha a criação do espetáculo homônimo de Deborah Colker, inspirado no poema O Cão sem Plumas, publicado em 1950. Para desenvolver a montagem, a coreógrafa e sua companhia percorrem Pernambuco, seguindo o curso do rio Capibaribe e investigando as relações entre paisagem, trabalho e movimento. A jornada conta ainda com a participação do cineasta Cláudio Assis, responsável pelas imagens utilizadas no espetáculo. É um encontro de dança, cinema e literatura que, no papel, parece ter sido especialmente planejado para agradar a alguém como eu.

E, durante alguns momentos, agrada. Há uma beleza inegável na maneira como os bailarinos observam os movimentos dos moradores, aprendem com manifestações populares e tentam transformar gestos cotidianos em linguagem coreográfica. Corpos cobertos de lama, pés que encontram ritmos na terra e movimentos inspirados no trabalho revelam uma dimensão física da poesia que dificilmente caberia apenas nas palavras. A fotografia também merece atenção, especialmente quando aproxima a textura da pele às rachaduras do solo e às margens do rio. São imagens que conseguem comunicar alguma coisa mesmo quando não sabemos exatamente o quê.
Deborah Colker, por sua vez, parece funcionar numa frequência própria. É fascinante observar sua energia, a maneira como se envolve com cada descoberta e sua disposição quase inesgotável para experimentar. A mulher é completamente tomada pelo que faz, o que considero uma qualidade admirável em qualquer artista, ainda que provavelmente exaustiva para quem precisa acompanhar seu ritmo. O problema é que essa intensidade nem sempre se traduz em clareza. Em determinados momentos, suas reflexões sobre o processo criativo parecem mais interessadas em atribuir significados grandiosos à experiência do que em permitir que os movimentos falem por si.

E aqui está minha principal dificuldade com o documentário: não compreender integralmente uma obra não deveria ser um problema, mas sentir que ela não consegue estabelecer uma conexão comigo acaba sendo. Camila Valença registra com sensibilidade o encontro entre diferentes linguagens artísticas, porém nem sempre encontra uma maneira de transformar esse processo numa experiência cinematográfica igualmente envolvente. A sucessão de ensaios, conversas e descobertas revela o trabalho por trás do espetáculo, mas também cria certa distância entre aquilo que os artistas experimentam e o que chega ao espectador. Em alguns momentos, parece que estamos assistindo a uma conversa maravilhosa entre pessoas que se entendem perfeitamente, só que ninguém lembrou de nos apresentar.
Isso não diminui a importância do projeto, tampouco a beleza de suas imagens. Há algo genuinamente interessante em observar artistas de diferentes repertórios tentando compreender um território por meio de seus corpos. Mas o documentário parece confiar tanto na potência desse encontro que nem sempre se preocupa em construir um percurso capaz de sustentar nosso interesse para além da admiração pelo processo.
Talvez eu precise revisitar o poema de João Cabral, assistir ao espetáculo ou simplesmente aceitar que algumas experiências artísticas não encontram em nós o público que esperavam. Cão sem Plumas certamente possui sensibilidade, dedicação e imagens belíssimas. Só não conseguiu me emocionar tanto quanto parecia convencido de que conseguiria. E olha que, normalmente, basta uma música bem colocada para eu começar a chorar.
Filme assistido em 30 de outubro de 2026, durante a 17ª edição da Janela Internacional de Cinema do Recife, no Cinema São Luiz.


