Peter Green conhece praticamente todo mundo na noite nova-iorquina. Sabe organizar uma festa, conseguir drogas e reunir pessoas que provavelmente não lembrariam o próprio nome na manhã seguinte. O que ele não sabe fazer muito bem é gostar de si mesmo. Aos trinta e poucos anos, o protagonista de Club Kid construiu uma carreira em torno de ser a pessoa mais divertida do ambiente, embora pareça cada vez menos convencido de que sua companhia seja tão agradável assim. É uma situação complicada para alguém que passa boa parte da vida cercado de gente.
Interpretado por Jordan Firstman, também responsável pelo roteiro e pela direção, Peter vê sua rotina virar de cabeça para baixo quando Arlo (Reggie Absolom), um menino de nove anos, aparece à sua porta. O garoto veio de Londres, perdeu a mãe recentemente e, para surpresa de Peter, é seu filho. A notícia seria difícil de administrar para qualquer pessoa, especialmente para um homem que mal consegue cuidar de si mesmo e cuja experiência com crianças parece se limitar a ter sido uma, muitos anos atrás.
A princípio, tudo indica que estamos diante de mais uma história sobre um adulto irresponsável que precisa aprender a crescer. Hollywood gosta bastante dessa fórmula, provavelmente porque colocar uma criança adorável diante de alguém que não sabe preparar o café da manhã costuma resolver metade do trabalho. Firstman conhece esse caminho, mas encontra maneiras de torná-lo mais interessante ao permitir que Peter continue sendo Peter, mesmo quando sua vida começa a mudar.

A sequência de abertura estabelece muito bem essa personalidade. A câmera acompanha o protagonista por festas, encontros e noites que parecem se misturar numa única lembrança barulhenta. A fotografia de Adam Newport-Berra e a montagem de Taylor Levy e Sofía Subercaseaux reproduzem a sensação de uma década atravessada quase sem perceber. Há música alta, corpos em movimento e uma energia tão convidativa quanto exaustiva. Quando Peter finalmente precisa encarar as consequências de suas escolhas, compreendemos que o tempo passou muito mais depressa do que ele gostaria de admitir.
Seria fácil transformar esse universo numa coleção de excessos que precisam ser abandonados para que o protagonista encontre uma vida respeitável. Felizmente, Club Kid não parece interessado em oferecer uma lição de moral sobre festas, sexo ou drogas. A comunidade queer que cerca Peter também acolhe Arlo, e alguns dos momentos mais afetuosos surgem justamente dessa convivência. O menino conhece os amigos do pai, descobre novos espaços e encontra pessoas dispostas a recebê-lo sem exigir que ninguém finja ser outra coisa. Amadurecer, afinal, não significa necessariamente abandonar tudo o que veio antes.
É na relação entre Peter e Arlo, porém, que Firstman encontra sua maior sensibilidade. O menino não conhece a reputação do pai, não carrega uma lista de decepções acumuladas e tampouco parece interessado em julgá-lo. Ele gosta de música, aprecia sua companhia e começa a encontrar um lugar naquela rotina tão diferente da sua. Para alguém acostumado a enxergar os próprios defeitos, descobrir que outra pessoa gosta genuinamente de estar ao seu lado pode ser uma experiência bastante desconcertante. Às vezes, basta alguém querer passar uma tarde conosco para colocar em dúvida anos de autocrítica.
Firstman também demonstra inteligência ao não transformar Arlo numa criança encarregada de corrigir os erros do pai. Embora o roteiro ocasionalmente facilite a convivência entre os dois, especialmente pela maturidade quase constante do menino, Reggie Absolom oferece uma interpretação espontânea e cativante. Seu Arlo tem uma tranquilidade que contrasta com a inquietação de Peter, e a química entre os atores sustenta boa parte da força emocional do longa. O garoto também está tentando encontrar um lugar depois de uma perda, ainda que nem sempre consiga expressar tudo o que sente.

O elenco de apoio contribui para que esse universo pareça habitado por pessoas com vidas próprias. Cara Delevingne interpreta Sophie, parceira profissional de Peter, cuja paciência com o comportamento autodestrutivo do amigo já chegou ao limite. Diego Calva aparece como Oscar, um assistente social que desperta o interesse romântico do protagonista. Algumas dessas relações poderiam receber mais espaço, assim como certos conflitos surgem de maneira previsível e encontram soluções convenientes. Ainda assim, essas limitações pouco comprometem o que Firstman consegue construir entre seus personagens.
Também impressiona a segurança com que o cineasta conduz seu primeiro longa-metragem. Conhecido pelo humor irreverente nas redes sociais, Firstman poderia ter apostado exclusivamente na provocação e na sátira da vida noturna. Em vez disso, encontra espaço para uma ternura que não parece deslocada daquele ambiente. O humor continua ácido, mas convive com momentos de intimidade que revelam outra dimensão de seu trabalho. Sua Nova York é barulhenta, caótica e cheia de personagens excêntricos, mas também pode ser um lugar surpreendentemente acolhedor.
Saí de Club Kid pensando em como algumas pessoas entram na nossa vida e, sem fazer grande esforço, conseguem mudar a maneira como nos enxergamos. Não porque tenham respostas para tudo ou sejam responsáveis por resolver nossas inseguranças, mas porque encontram motivos para gostar de nós quando já estávamos convencidos de que esses motivos não existiam. Jordan Firstman transforma essa percepção numa comédia divertida e inesperadamente emocionante. Peter pode conhecer todo mundo na festa, mas é quando alguém quer ficar ao seu lado depois que ela termina que ele começa a compreender o próprio valor.
Filme assistido em 29 de outubro de 2026, durante a 17ª edição do Janela Internacional de Cinema do Recife, no Cinema São Luiz. Até o momento, Club Kid não possui data oficial de estreia comercial confirmada nos cinemas brasileiros.


