Parecido com os longas anteriores da filmografia dos Safdie, em Marty Supreme, todo o caos de seu protagonista é uma consequência de seu mundo e vice-versa. O filme aborda um personagem desprezível, mas também genial quanto sua perseverança e talento. É uma complexidade que será levantada ao telespectador a todo momento e o que resta na jornada é apreciar.
Ambientado na Nova York dos anos 1950, o filme acompanha Marty Mauser, um jovem subestimado ,que persegue a grandeza no tênis de mesa, um esporte desacreditado. Determinado a sair da precariedade, Marty luta para construir uma carreira de sucesso, enfrentando preconceitos, apostas, ambições e desafios pessoais enquanto tenta provar seu valor no caminho rumo à glória.
Um dos grandes chamarizes do filme é uma criação de mitologia daquele micro universo do protagonista que beira o sensacional. Ele traz o submundo da vida pessoal do personagem enquanto consegue trabalhar uma escala mais mundial quando o mesmo está no mundo do ping pong. Enquanto acompanhamos toda a vida pessoal e uma série de conflitos quanto à sua relação fracassada com o dinheiro, e assim, afetando toda sua ambição em se tornar o maior do esporte. É um pêndulo que constantemente está agindo no longa, quando tudo parece encontrar um caminho, vem novamente uma tempestade. É uma narrativa, não à toa, muito inspirada nos filmes do Scorsese, os irmãos já declarados inserem essa questão de intensidade e manipulação do tempo em seus filmes.

E aqui não é diferente, cada detalhe inserido no jeito de filmar, nas pequenas histórias que engrandecem aquele universo. Existe um momento único no filme, quanto ao antigo campeão de ping pong e amigo de Marty, contando sobre sua sobrevivência no holocausto, é algo tão absurdo e marcante que acaba registrando aquele personagem com pouquíssimo tempo de tela. E além disso, os pequenos e grandes comentários da época, anos depois da segunda guerra mundial e suas marcas no mundo, tudo aquilo está inserido ali. Seja para demonstrar uma atitude mais perversa do protagonista ou contextualizar a situação geopolítica da época, tudo isso engrandece um filme que à primeira vista parece apenas uma cinebiografia sobre um atleta de ping pong.
E os comentários sobre aquele crescente e eterno “Sonho Americano” são ótimos. A figura do Marty está constantemente sendo subjugada à medida que parece estar crescendo na vida, tudo isso na razão de ser uma pessoa pobre, onde sonhos desse nível, ainda mais atleta de ping pong, são inviáveis e bobagens. A presença inicial do tio, dono de uma sapataria, deixa claro esse menosprezo das massas em um rapaz de 23 anos sonhando em ser campeão do esporte, constantemente sendo puxado para baixo e oferecido um cargo máximo de Gerente.
Claro que em um mundo acompanhado de diversos erros e defeitos, nosso protagonista acaba sendo o maior deles. Não só uma entrega física quanto à sua energia, habilidades no esporte e força. Mas também um desprezo quanto às suas atitudes, pensamentos, falas e um narcisismo que beira a sociopatia. É isso que molda todos os acontecimentos do filme. E o mais incrível é juntar uma força que seja mínima para você querer acompanhar toda sua jornada, e no final, realmente acreditar no talento do personagem, que ele passou o filme todo falando e provando.

A prova disso é o ato final. Onde o grande conflito e batalha está inserido em uma ação de marketing entre os dois melhores atletas daquela época, mas que transformados pelo protagonista em um conflito máximo, altamente necessitado por ele mesmo, o mais supremo egoísmo e narcisismo que o filme fez questão de deixar claro. É tudo por ele e para ele. Porém é impossível não se importar ou vibrar com um conflito micro mas potencializado no maior jogo de Marty.
E muito dessa potência está ligada com o ator, Timothée Chalamet, em um personagem bastante parecido com o ator no quesito busca pela conquista, o máximo. Não à toa, existe um casamento perfeito dos dois, um personagem extremamente humano e imperfeito. Uma mistura de grandeza, fracasso, narcisismo, egoísmo, inteligência, ambição. É um caldeirão de emoções, uma jornada repleta de tensão e imprevisibilidade.
E antes de qualquer coisa, o pensamento de ser apenas um filme sobre ping pong é completamente jogado fora ao seu início. São 2h30 de caos, exagero, esporte, conflitos e com uma trilha sonora que potencializa ainda mais essa energia grandiosa. Um dos personagens mais interessantes que o cinema americano proporcionou nos últimos anos.


