
Por se tratar dessa onda de nostalgia que contaminou o cinema nos dias de hoje. A expectativa quanto O Diabo Veste Prada 2 se tornava mínima justamente por se tratar mais de um produto nostálgico surfando nesses resgates contínuos dos estúdios para obras de antigo sucesso, ainda mais o estúdio Disney. Felizmente não é o caso aqui, ou melhor, é, mas com diversas camadas de atualizações e comentários muito pertinentes sobre o atual estado da indústria.
O Diabo Veste Prada 2 (2026) acompanha uma Miranda Priestly (Meryl Streep) em declínio, enfrentando o colapso das revistas físicas. Ela precisa lidar com Emily (Emily Blunt), agora uma executiva influente em um grupo de luxo, de quem Miranda depende desesperadamente para obter investimentos publicitários.

E o longa logo em seu início se utiliza da figura da Andy Sachs, a querida Anne Hathaway, para criticar o atual estado do jornalismo. Não só uma evidência do descarte das pessoas hoje em dia, com ela e sua equipe sendo demitidas enquanto recebem um prêmio de jornalismo, mas também uma pobreza quanto as exigências nas mídias, muito mais preocupadas em shorts rápidos e esquecíveis.
E o senso de nostalgia do filme é muito bem equilibrado. Não é algo forçado como alguns filmes já exploraram, é tudo muito natural e dinâmico; a sensação que fica é que não passaram vinte anos desde o último filme. Não só pela aparência dos personagens, mas uma carga veterana entre esses atores, todos já consolidados e caindo como uma luva ao retorno. Vamos ter os reencontros, os comentários sobre tudo que passaram, motivações, medos, etc.

Um destaque para esse retorno é a nova posição dos personagens. Enquanto temos o retorno da Andy para a revista, numa tentativa de resgatar socialmente a imagem de Miranda depois de más decisões e falas controversas. Não só é uma atualização para os dias de hoje, e toda essa cultura do cancelamento, que não é novidade no cinema, porém funciona muito bem para essas ambiente midiático e exagerado da moda, a importância da imagem. O retorno da Andy traz a maturidade e jogo de cintura que a personagem aprendeu no primeiro filme e com certeza desenvolveu ao longo de seus anos, e ainda sim traz uma pureza da personagem que continua em choque com algumas atitudes de Miranda e todo a toxicidade do ambiente da indústria.
E a novidade é a invertida que o filme vai desenvolver com o poder de Miranda sobre a revista Runway. Aqui vamos acompanhar pessoas acima dela, as que realmente mandam na empresa. Então vai se desdobrar não só esse problema envolvendo sua figura pública, mas em decorrência do falecimento do CEO da dona da revista, o novo presidente decide cortar gastos dentro de empresa e mudar praticamente o foco da revista, em decorrência das mudanças globais. E o filme surpreendente se utiliza disso para mostrar uma Miranda sem poder, frágil e perdida tamanho o problema. Apesar da figura de Miranda fazer mais sentido nos momentos de comédia do que propriamente uma análise da personagem, pois sem sombra de dúvidas ela é asquerosa, mas o filme, assim como seu anterior, nunca parece de fato preocupado em resolver esse problema dela, mas apenas contornar uma situação e assim segue.
E as soluções dos filmes parecem realmente simples comparado a toda a situação global e midiática que o filme apresenta e geralmente com soluções fáceis. Apesar da virada e traição da personagem da Emily ser boa quanto seu ressentimento à Miranda e assim tentando se apossar da revista em seu nome, os desfechos são bem mais tranquilos quanto uma novela das seis.
O Diabo Veste Prada 2 é um retorno divertido para os queridos personagens do mundo da moda. Ele não só monta uma nostalgia bem natural e divertida com aquele universo todo, mas também traz uma atualização justificável quanto os rumos do jornalismo, o uso de IAs, as mudanças da personalidade na indústria para algo mais lucrativo e mecânico. E a cereja no bolo é o balde de elegância e experiência de todos os atores principais.


