Com estreia marcada para o dia 15 de janeiro (quinta-feira), Davi – Nasce um Rei (David), novo filme de animação-musical da Angel Studios, acompanha um jovem pastor apontado pelo profeta Samuel como o novo Rei de Israel. Quando o gigante Golias ameaça aterrorizar sua nação, Davi decide enfrentá-lo apenas com poucas pedras, uma funda e sua fé inabalável. Esse confronto coloca David numa jornada em que sua lealdade, esperança e propósito são testados.
Com os recentes lançamentos de O Rei dos Reis e Davi – Nasce um Rei, ambos distribuídos pela Angel Studios (The Chosen), vivemos uma aparente retomada das animações de cunho religioso, que despertam princípios sobretudo cristãos, além de serem educativas e, para determinado nicho, necessárias. Quando a DreamWorks de Steven Spielberg surgiu com a ideia de adaptar Êxodo, com o insuperável O Príncipe do Egito (que esbanja perfeição técnica e narrativa mesmo após quase 30 anos de seu lançamento), e Gênesis com José, O Rei dos Sonhos – infelizmente esquecido, mas ainda de grande valor para o cinema animado -, o estúdio não estava preparado para a morna recepção que filmes de animação 2D vinham recebendo na era denominada mais experimental dos desenhos. Após a grande concorrente da Disney se consolidar como uma das grandes produtoras de filmes 3D direcionados para a cultura pop ou algoritmos, longas de animação religiosos passaram para estúdios pequenos que desproviam de técnicas e caprichos estéticos e conteudistas desenvolver suas produções.

Com a Angel Studios, fundada em 2021 como um dos principais veículo de conteúdos audiovisuais cristãos, suas duas grandes produções animadas parecem ressuscitar a onda de filmes infantis religiosos, feito que a Sony Pictures tentou reproduzir com o divertido, porém pouco lembrado, A Estrela de Belém (The Star), em 2017. Lançado na Páscoa de 2025, O Rei dos Reis (The King of Kings) foi uma bela retomada às produções mais monumentais baseadas na Bíblia, com um foco mais centralizado na adaptação da Palavra descrita nos livros e nas crenças, com poucas intervenções criativas para o desenvolvimento de sua linguagem fílmica, mas sem perder os encantos de um longa-metragem de animação destinado para toda a família. Com Davi – Nasce um Rei, a narrativa é construída tendo como base I Samuel 17, mostrando desde a descoberta do Profeta sobre o filho mais novo de Jessé ser o escolhido de Deus para ser o novo Rei de Israel, sua vitória sobre o gigante Golias – campeão dos Filisteus – e a sua fuga das perseguições do Rei Saul.
Dirigido por Phil Cunningham e Brent Dawes, que também assume o roteiro ao lado de Kyle Portbury e Sam Wilson, Davi – Nasce um Rei, que é uma continuação da série animada Young David (2023) se inicia com todo carisma necessário para atrair crianças, jovens e adultos: um protagonista valente, momentos de ação de tirar o fôlego (o momento que Davi protege suas ovelhas do ataque de um leão é realmente bem dirigido) e músicas inspiradoras até então. Porém, do segundo para o terceiro ato, após a rápida e pouco entusiasmada vitória do pequeno pastor contra o gigante Golias dos Filisteus, o filme adota um ritmo mais acelerado e repleto de informações, distribuídos na trama com uma série de conveniências para acelerar o desfecho da história, ilustrando importantes passagens, como a loucura do Rei Saul, o assassinato dos sacerdotes e a perseguição a Davi com sequências minimamente inspiradas e diálogos escritos às pressas que são complementados por constantes números musicais. No entanto, os momentos finais conseguem subverter a zona perigosa na qual a produção acabou se enfiando, trazendo um desfecho épico e com todos os ensinamentos propostos pela história: coragem, fé, perseverança.

Assinada por Joseph Trapanese (O Rei do Show), a trilha sonora da animação está dividida entre faixas harmoniosas e repetitivas. Uma pena a trilha contar com poucas canções desenvolvidas com instrumentos e ritmos tradicionais da região onde a história se passa. No final, seu excesso mais atrapalha a narrativa, em vez de acompanhá-la.
É inegável que Davi – Nasce um Rei dispõe de uma formosa técnica animada, repleta de movimentos fluídos, sombras e texturas, o que permite com que o longa se encaixe em um padrão de filmes de animação em 3D cujo a estética beira o convencional, sem grandes inovações técnicas ou criatividade para realizar e utilizar de diferentes formas para ilustrar sua narrativa ou até contar sua história de uma maneira única. Não existe aqui uma crítica à ausência de ousadia técnica por parte dos animadores, até pelo fato de o trabalho de animação ter sido realizado com esmero. Por outro lado, é possível sentir os efeitos de uma zona de conforto encontrada pela equipe.
Com um elenco de vozes formado pelos talentos de Phil Wickham, Brandon Engman, Asim Chaudhry, Lauren Daigle, Mick Wingert, Brian Stivale, entre outros, Davi – Nasce um Rei talvez seja uma tentativa, ora assertiva, ora um tanto desleixada, de recomeçar uma nova leva de produções épicas voltadas para o público infantil cristão, tal como O Príncipe do Egito planejou fazer. Mesmo tendo muito o que aprender com o clássico da DreamWorks, a Angel Studios já demonstrou que tem competência no cinema animado.


