Crítica | Duna

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O Monomito, ou Jornada do Herói, foi um conceito criado em 1949 pelo escritor Joseph Campbell. Esmiuçada em etapas posteriormente por Christopher Vogler, a trajetória de uma figura que se vê nesta missão percorre o distanciamento do lugar comum em que encontra-se, o chamado para o “desafio”, a batalha em si e o retorno para uma certa comodidade. Espertamente, Hollywood desfruta para seu próprio benefício da criação de Campbell, fato comprovado em franquias astronômicas como Harry Potter, O Senhor dos Anéis e Star Wars. Embora tenham diferenças em torno de suas histórias, os universos destes filmes acontecem paralelamente ou de forma independente à Terra, e seus  personagens, condizentes com seres, em tese, comuns, que são induzidos a grandes propósitos, configuram semelhanças entre as tramas de Harry, Frodo e Luke Skywalker. Sendo mais um experimento (não tão novo assim) da Jornada do Herói, Duna (2021), de Denis Villeneuve, faz de sua existência uma esperança para uma boa reciclagem dos ensinamentos do autor no habitual gênero da ficção científica. 

Adaptação do icônico livro de Frank Herbert com mesmo nome originado em 1965, Duna parte de onde alguns tentaram começar. Alejandro Jodorowsky, nos anos 70, deu início a empreitada de transformar cinematograficamente a obra, nesse caso incluindo personalidades como Orson Welles e Salvador Dalí em um longo filme de 14 horas. Não deu certo. Já em 1984, David Lynch esforçou-se para entranhar seu surrealismo em um Duna que peca pelo exagero – talvez pela limitação de recursos da época igualmente. Em 2021, após atrasos e remarcações de datas de estreia, Denis Villeneuve conseguiu concretizar sua releitura das mais de 600 páginas da literatura base de seu longa-metragem. Nele, a Casa Atreides comanda o planeta Arrakis, um terra desértica porém preciosa devido a uma especiaria nativa rara denominada de “melange”, objeto de desejo por suas propriedades comerciais e até sobre-humanas. Paul Atreides (Timothée Chalamet), filho do duque que rege a localidade, é treinado para substituir seu pai ao passo que tem premonições acerca do futuro de lá, que é também é alvo de interesse da família Harkonnen. Com Arrakis e a “menage” correndo o risco de ser tomada por uma Casa autoritária, Paul, sua mãe, Lady Jessica (Rebecca Ferguson), e outros, saem em busca de sua salvação. 

Em toda sua imensidão, Duna fala minuciosamente nos seus detalhes. A câmera que mesmo em cenas de ação permanece estável e as sequências lentas de contemplação do vento, do sol, da poeira, dos passos e dos demais elementos proporcionados pela rudez e, simultaneamente, delicadeza do deserto, não contrastam com a vagarosidade do enredo. A demanda gigante de dados, informações, concepções, ideais, materiais e nomes ditos a todo tempo requerem obrigatoriamente uma atenção maior do espectador, que pode não estar familiarizado com aquele mundo e sentir-se perdido dentro de tanta teoria. Entretanto, é a parte teórica que constrói a tensão invariável do longa-metragem. A sensação de uma ameaça próxima, sem ter alívios nem cômicos nem reais no contexto do filme, é o que sustenta o desenvolvimento meticuloso em cada palavra e cuidadoso na formação de um senso de que toda situação abarca mais do que quem está na tela; a dependência do mantimento da vida no planeta gira em volta da continuidade de uma soberania sem absolutismo. 

Foto: Warner Bros/ Divulgação

Embora não haja nenhum didatismo, embarcar na obra é mais do que uma comunicação condensada na questão do que é dito. Existe uma atmosfera além da profusão de termos confusos; na verdade, o que há é uma submersão no deserto e seus arredores, sendo esse território um protagonista que infere seus riscos e suas vontades alheias à guerra que consome sua volta. A magnitude de Duna refere-se a maestria com que tal espaço foi tratado, evidenciando que o que está em jogo é muito mais difícil de se conquistar do que algo inanimado. Logo, a arte por trás dos cenários, desérticos ou concretos, tais quais a moradia do núcleo familiar de Paul, nunca ultrapassou o taciturno, o sóbrio e a luminosidade de um ambiente, apesar de tudo, ensolarado. A fotografia de Greig Fraser não só põe um “aparelho de fumaça” em entradas triunfais; ele enaltece a importância de uma plasticidade eficiente para a criação da distância do público com Arrakis, visto se tratar propositalmente de uma fonte ficcional. 

Apesar do caráter imaginativo e longínquo, o filme propõe uma factualidade embutida nas questões intergaláticas. A politicagem tirana, os danos de uma ecologia mal cuidada, a disputa de poder, etc.; são ganchos para a analogia com a atualidade. A principal, talvez, envolva um fanatismo (mais para o âmbito religioso) trabalhado como a exaltação de alguém supostamente supremo, no qual a cegueira conduz “fiéis” ferrenhos. Equiparável com o tópico, está também um comércio nocivo que liga qualquer propriedade com um preço, por vezes inalcançável. De qualquer forma, os assuntos levantados de maneira subliminar atendem ao foco do longa-metragem em não ser declaradamente uma obra sobre política ou uma forte crítica à sociedade de 2021. Efetivamente, Duna é pautado na identificação sutil que o roteiro escolheu para abordar, de um jeito extraterrestre, as adversidades terrenas. 

Com um elenco fora de série, o filme ganha pontos. O hypado Timothée Chalamet, de Me Chame Pelo Seu Nome (Luca Guadagnino, 2017), como Paul, é certeiro em um papel – em uma obra totalmente voltada para seu personagem – que cresce aos poucos. A descoberta do rapaz é cativante, ainda mais ao lado de sua mãe, a Lady Jessica de Rebecca Ferguson. A moça, pertencente a uma espécie de clã de mulheres bruxas, detém o espírito materno e o espírito valente dentro de si, com a atriz a compondo com sua sensibilidade. O duque Leto Atreides, Oscar Isaac, que governa Arrakis, é um ponto de racionalidade entre o emocional de filho e esposa, ainda que se mostre sentimental, especialmente com Paul. Já os que assumem o cargo da vilania de Harkonnen, Stellan Skarsgård incorpora o cruel Barão Vladimir Harkonnen, mas não desenvolve-se suficientemente, assim como Chen Chang e o Dr. Wellington Yueh. Além disso, nomes imponentes foram bem operados, como Jason Momoa – interpretando uma versão carismática similar a seus papéis anteriores no cinema – e Javier Bardem e sua altivez como Stilgar. Zendaya, a Chain dos Fremen, uma das tribos de Arrakis, teve uma aparição de menos de 5 minutos. Contudo, há de se julgar que ela ainda será de grande relevância.

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Denis Villeneuve, diretor de obras como Sicario: Terra de Ninguém (2015) e Os Suspeitos (2013), mira na categoria da ficção científica pela terceira vez, posteriormente A Chegada (2016) e Blade Runner 2049 (2017). Comprovado nesses filmes, o cineasta detecta uma visão poética do futuro, manuseando a beleza que o desconhecido pode reter e apreciando seu estado mais catastrófico. Em Duna, Villeneuve media o calamitoso com a suavidade de quem tem nas mãos uma pedra a ser lapidada; ele reconhece a potencialidade do filme de ser monumental, e concretiza isso com um visual sem exageros e respeitoso com a trama e sua zona de origem, a observando com planos amplos e destacando seus componentes, como a luz do sol. A trilha sonora de Hans Zimmer faz dupla com a intenção do diretor; batidas de tambores mesclados até com sintetizadores engrandecem qualquer ocasião, tornando caminhos sempre majestosos, desde a entrada de um personagem até uma cena de confronto. Com sabedoria, momentos pontuais são privilegiados com mais intensidade ou menos. 
David Lynch é referência para o mundo do cinema, porém só Denis Villeneuve atingiu a complexidade de Duna em seu exemplar mais digno. O filme de 2021 é um deleite para os olhos, com uma estética impressionante,  e uma aula de inteligência para os que apreciam o desenrolar de um longa-metragem sem muitas firulas nem exposições. Por ter uma narrativa que dá preferência para o total entendimento do universo de Arrakis (incluindo seus termos) e não para a praticidade e ação inseridos nessa esfera, dado que estas têm hora certa para iniciar, a obra não deve agradar a todos. Contudo, o desfecho em aberto deixado pela grande produção, que custou cerca de 165 milhões de dólares, traz a indagação de se de fato terá uma segunda parte e, se houver, qual será o verdadeiro significado dela para os leitores de Duna, os amantes dos filmes anteriores e os novos adeptos que agregaram-se com o Duna de Villeneuve. Agora resta esperar os próximos passos daquela que tem uma forte propensão a ser a nova franquia do momento.

Revisão Crítica

NOTA
Laisa Limahttp://estacaonerd.com
Uma mistura fictícia de Grace Kelly, Catherine Deneuve e Brigitte Bardot versão subúrbio carioca do século 21.

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