Existe uma vantagem considerável em ser criado por uma avó que não vê problema em você gostar de futebol, maquiagem e uma boa dança: enquanto boa parte do mundo está ocupada decidindo como uma criança deveria se comportar, ela está preocupada em saber se você já comeu. Gugu tem essa sorte. Aos 11 anos, o protagonista de Feito Pipa, novo longa de Allan Deberton, parece conhecer a própria personalidade melhor do que muito adulto que passou décadas tentando descobrir quem é.
Vivido por Yuri Gomes, Gugu mora com a avó Dilma (Teca Pereira) numa comunidade do sertão cearense. Ele joga futebol, dança, gosta de maquiagem e não demonstra interesse em adaptar seu comportamento às expectativas alheias. Já a convivência com o pai, Batista (Lázaro Ramos), é mais complicada. Caminhoneiro e preso a uma ideia rígida de masculinidade, ele ama o filho, mas tem dificuldade em aceitar que Gugu não corresponde ao menino que imaginou criar.
O coração do filme está na relação entre avó e neto. Dilma é divertida, vaidosa, namora e aproveita a vida com uma disposição que provavelmente deixaria muita gente mais jovem cansada só de acompanhar. Gugu é seu companheiro de aventuras, e a intimidade entre os dois aparece nas brincadeiras e na naturalidade com que dividem a rotina. Teca Pereira e Yuri Gomes têm uma química adorável, dessas que fazem a gente acreditar que os personagens se conhecem muito antes de a câmera começar a filmar.

Essa cumplicidade ganha outro significado quando Dilma começa a apresentar sintomas de Alzheimer. A mulher que sempre protegeu Gugu passa a precisar de cuidados, e o menino tenta esconder a gravidade da situação para não ser afastado dela. Aos poucos, ele assume responsabilidades que não deveriam caber a uma criança de 11 anos, enquanto a avó perde lembranças e parte da independência que tanto valoriza. Deberton acompanha essa inversão com sensibilidade, sem reduzir Dilma à doença ou esquecer que, apesar das mudanças, o carinho entre os dois permanece.
A poesia visual de Feito Pipa acompanha essa transformação. Em alguns momentos, uma pipa atravessa o céu azul, livre para seguir o vento. Em outros, está presa numa árvore, impedida de continuar o voo. A imagem ganha novos significados conforme Gugu descobre que nem tudo pode ser controlado pela força da vontade. Gosto de como Deberton confia nessa metáfora sem precisar explicá-la a cada aparição. A fotografia também merece atenção por apresentar um sertão colorido, cheio de música e movimento, distante da imagem desbotada que tantas vezes acompanha histórias ambientadas no semiárido. O humor, principalmente nas interações entre as crianças, impede que a narrativa se transforme num drama permanentemente solene.
Yuri Gomes é a grande descoberta do longa. Sua atuação tem uma espontaneidade impressionante, especialmente quando Gugu alterna a confiança habitual com o medo de perder a avó. Teca Pereira acompanha essa energia com uma interpretação calorosa, enquanto Lázaro Ramos constrói Batista pela contenção, revelando um homem que aprendeu a esconder o afeto atrás da rigidez. O problema é que o roteiro nem sempre acompanha a complexidade sugerida pelo ator. A relação entre pai e filho poderia explorar melhor as contradições de Batista, mas acaba recebendo um desenvolvimento menos cuidadoso do que a convivência com Dilma.

O terceiro ato também parece apressado em encaminhar conflitos construídos com paciência ao longo da narrativa. Algumas soluções melodramáticas deixam a sensação de que ainda havia conversas importantes a acontecer, especialmente entre Gugu e o pai. Feito Pipa funciona melhor quando permite que seus personagens convivam, sem a necessidade de transformar cada situação numa grande demonstração de sentimento.
Ainda assim, é difícil sair indiferente à história de Gugu e Dilma. O filme encontra sua maior força num amor que não exige explicações nem condições para existir, mesmo quando as circunstâncias obrigam os dois a mudar a maneira como se relacionam. Gugu foi criado por uma mulher que lhe ensinou a ser livre, e talvez sua tarefa mais difícil seja compreender que nem sempre poderá mantê-la por perto da maneira que gostaria. Afinal, quem ensina uma criança a empinar pipa também precisa aceitar que, em algum momento, será necessário soltar a linha.
Feito Pipa estreia nos cinemas brasileiros em 5 de novembro de 2026.


