Fiebre: Um Filme Para Crianças Que Não Têm Medo de Fogo acompanha Nino, uma criança com problemas de visão que, afetada por uma forte febre, é absorvida por uma pintura misteriosa por meio de um estranho encantamento, antes alertado pela sua mãe. Sem saída, o menino se perde em um labirinto de imagens que o afasta cada vez mais da segurança do lar.
Filmes destinados para um público específico que acabam conquistando outro quase oposto àquele que havia sido proposto geralmente são produções mais complexas do que aparentam. No entanto, apesar de interessante, essa mudança também pode ser perigosa. Em longas-metragens infantis, por exemplo, quando o discurso implícito acaba sendo mais atraente para alguns adultos do que a linguagem mais autoexplicativa se mostra mais forte para as crianças, o filme pode sofrer não só os impactos de uma bilheteria fraca, mas também o esquecimento. Fiebre: Um Filme Para Crianças Que Não Têm Medo de Fogo, produção chilena, brasileira e peruana que chega aos circuito comercial neste dia 17 de setembro, parece ser um exemplo dessa problemática de filme infantil que parece ser mais adulto do que deveria. Mas, isso não tira seu encanto, tampouco sua originalidade.
Claro que o longa escrito e dirigido por Elisa Eliash ostenta de inúmeros artifícios que classificam a obra como uma fantasia destinada para o público infantil, desde sua linguagem lúdico, diversas vezes autoexplicativa e didática, a utilização de uma realidade fragmentada como elemento narrativo para mostrar diversas passagens de uma aventura surrealista imaginada por uma criança com febre, misturando magistralmente efeitos em animação stop-motion, 3D e live-action, e personagens que exalam a energia infanto-juvenil. Eliash, compreendendo que a produção teria que apresentar atrativos para os adultos que iriam acompanhar as crianças na sala de cinema, resolve também estabelecer uma conversa com esse público, apresentando temas como identidade e autoconhecimento, mesmo que de forma subjetiva.

No momento que Fiebre decide conversar com dois públicos diferentes, gerando uma linha narrativa que aposta em cheio na criatividade, existe também uma certa sensação de estranhamento por conta do extenso flerte com o surrealismo estabelecido pela realizadora Elisa Eliash, até o filme se concentrar em uma parábola referente ao medo do fogo que tem a tragédia natural do vulcão da vila mexicana de Nuevo San Juan Parangaricutiro (ou Parangaricutirimícuaro) como cenário principal, sendo esse um dos momentos mais reflexivos e belos de todo o longa. Há momentos que também necessitavam de uma maior atenção por parte do roteiro, que já está recheado com diversas histórias paralelas e alusões, como a parte do encantamento contado pela mãe do protagonista, que é mais exposto sem grandes detalhes, até para poder fugir de imbróglios.
Existem dois grandes pontos, além da originalidade estética e narrativa, que também contribuem para o resultado positivo de Fiebre: a exímia direção de fotografia de Michelle Bossy, que se adapta incrivelmente em todas as mudanças visuais e técnicas de animação que o filme passa, e o elenco visivelmente esforçado e empenhado a entregar atuações convincentes, tendo como destaque Lautaro Cantillana Teke, intérprete do protagonista Nino, Nora Catalano, que brilha como a adorável e monossilábica Dina, e Macarena Teke que atua como a mãe do personagem principal (além de ser mãe do jovem ator na vida real). O longa ainda conta com participações de: Gabriela Arancibia, Nestor Cantillana, José Soza, Diego Noguera e Pablo Schwarz.
Fiebre: Um Filme Para Crianças Que Não Têm Medo de Fogo é uma interessante aula de artes, sentimentos e descobertas para crianças e adultos, que acaba sendo um grande diferencial criativo do cinema sul-americano.


