qua, 21 outubro 2026

Crítica | Fjord

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Até onde vai a liberdade religiosa? Pode o Estado intervir na manifestação de fé alheia? Deve? São esses os questionamentos centrais propostos por Cristian Mungiu em seu mais novo filme vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes desse ano, Fjord.

Um casal de fanáticos religiosos educa seus filhos com base em uma rigorosa doutrinação cristã tradicional, segundo a qual as crianças não podem participar de festas, ouvir músicas “mundanas”, nem ter acesso à internet ou celulares e devem rezar todas as noites, sob pena de serem castigados, aí começam os problemas, uma vez que esses castigos podem, eventualmente, tornarem-se físicos, resultando em palmadas e “pequenas” agressões.

Quando a escola toma conhecimento desses relatos e denuncia formalmente os pais, esses perdem, temporariamente, a guarda dos menores, inclusive do bebê recém-nascido, ainda em fase de amamentação. Surpresos com a drasticidade da medida, eles não parecem capazes de compreender o quão grave são as acusações. Há um choque cultural – além do religioso – entre a criação mais conservadora de Mihai na Romênia, e as leis progressista da Noruega, país de sua mulher, Lisbet, para onde acabaram de se mudar e no qual estão sendo julgados.

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Julgamento esse que é permeado por diversos questionamentos éticos desde antes de sua instauração propriamente dia. Apesar das boas intenções, os dois adolescentes são inicialmente entrevistados em um idioma pouco compreendido por eles e o depoimento sequer é registrado; a instituição parece concentrar poderes excessivos e na delegacia, ainda pendente uma investigação, Mihai é coagido a assinar uma confissão diversa da prestada.

O filme propõe esse olhar crítico em direção a um judiciário falho, apesar de, nesse caso, bem-intencionado, sem nunca tomar partido favorável ao casal suspeito de maus tratos infantis, mesmo contando a história, majoritariamente, a partir da perspectiva deles. Mungiu dedica vários minutos introdutórios para nos mostrar as nuances da dinâmica familiar, já deixando claro, na primeira cena, o poder dos país e a completa submissão das crianças.

Quando o drama de corte engata é com uma proposta bastante diversa dos típicos filmes de tribunais americanos, se mostrando pouco interessado em reviravoltas mirabolantes, nem monólogos longos e comoventes. O foco recai mais em demonstrar a dificuldade dos adultos, em especial Mihai, de entender a seriedade de um “tapinha leve”, além das violências psicológicas praticadas. Indignado, ele acredita estar sendo perseguido por conta de sua fé e tenta se colocar no lugar de vítima.

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Sebastian Stan desaparece por trás da composição desse homem pseudo calmo, cujos acessos de raiva são proferidos com uma voz aveludada. A princípio ele parece doce e gentil, excessivamente controlado, até ser contrariado e demonstrar sua agressividade atípica. Já a Lisbet de Renate Reinsve se apresenta como essa mulher submissa, totalmente sobrecarregada pela dupla jornada de trabalho, dentro e fora de casa, com sua postura curvada, refletindo o peso do mundo carregado nos seus ombros e direcionando seu olhar para o chão, como quem evita ser desafiadora. Dois excelentes trabalhos de construção de personagem.

Mungiu controla sem pressa a passagem do tempo, tornando-a propositalmente demorada, com poucos movimentos de câmera e uma edição pontual. O ritmo é até apropriado e a longa duração, por si só, não chega a cansar, apesar de se tornar um tanto repetitivo em alguns pontos. No entanto, a despeito das mais de duas horas, algumas pontas permanecem soltas, algumas sem muita relevância, como a adolescente ciumenta, e outras que impactariam diretamente a narrativa, como o resultado do exame do bebê, em torno do qual é criado todo um drama e acaba inconcluso. Não é que tudo precise ser explicado, mas da forma feita passou uma ideia de algo esquecido ou negligenciado. O próprio núcleo do avô poderia ter sido melhor desenvolvido e aproveitado.

Feitas as ressalvas, o final amargo é também muito impactante, na medida em que conclui uma história tão conturbada com uma sincera e desesperada proclamação de amor, justamente do tipo rejeitado pelos “valores” daquele casal. O grito ecoa pela tela e ressoa nos ouvidos mesmo depois dos créditos rolarem.

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
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