Gravado no Rio Grande do Sul, durante as chuvas catastróficas que assolaram o Estado em 2024, Futuro Futuro é um drama de ficção-científica que acompanha K (Zé Maria Pescador), um homem de 40 anos sem memória que é acolhido por um trabalhador solitário, que embarca em uma jornada introspectiva após usar um dispositivo de inteligência artificial.
É curioso como o cinema de ficção-científica que aposta em uma abordagem mais pessimista e distópica de futuro vem se desdobrado no Brasil, nos últimos anos. Sucessos como Bacurau (2019), Divino Amor (2019), A Nuvem Rosa (2021) e O Último Azul (2025) foram exemplos poderosos da ascensão do subgênero cinematográfico sob o olhar cultural brasileiro que trouxeram abordagens políticas e sociais modernas, prudentemente utilizáveis em debates sobre segregação, religião, regionalismo, etarismo, entre outros temas que esbanjam polêmicas. Seguindo a leva de produções ambientadas em realidades assustadoras e não muito distantes, o cineasta Davi Pretto – conhecido por “Continente”, de 2024, e “Castanha”, de 2014 – lança seu mais novo longa-metragem: Futuro Futuro, uma jornada pela recuperação de memórias e uma luta para mantê-las.
Também sob a autoria de Davi Pretto, o roteiro de Futuro Futuro parte de um argumento relevante, apesar de tal fato soar mais como banal, ou até de enfoque repetitivo, como parte essencial a ser destacada sobre o longa. Afinal, ficções-científicas apostam em relevâncias narrativas na maioria das vezes. A diferença está em como essas discussões são apresentadas e desenvolvidas em tela. No caso dessa nova produção gaúcha, o problema está no evidente desejo de contar a sua boa história de maneira rebuscada a ponto de torná-la confusa e cansativa. Evitando aprofundar em críticas sociais coesas que são gradativamente apresentadas na trama, Futuro Futuro opta por uma tentativa de exploração da deterioração mental em meio a desigualdades sociais e avanços tecnológicos.
O texto trata a Inteligência Artificial tanto como uma ameaça quanto uma solução para os problemas enfrentados pelo protagonista K e por outras pessoas que vivem na miséria e sobrevivem através de troca de favores. Havia discussões realmemete interessantes sobre o poder da memória e a importância de mantê-la, além de alegorias a respeito da segregação de classes por muros e discussões sobre como é capaz de sobreviver neste sombrio e não muito distante futuro apresentado no longa-metragem, mas que parecem não ser levadas adiante da maneira mais convencional, resumindo toda a crítica em passagens rápidas e cenas retalhadas. Por outro lado, há sequências de apreciação visual concebidas por Davi Pretto que, de fato, possui um olhar poético e determinado a ilustrar sua história com boas imagens projetadas também sob a exímia direçãode fotografia de Leonardo Feliciano. No entanto, é questionável se, apesar das intensas críticas à inteligência artificial, algumas sequências delirantes com efeitos visuais tenham sido geradas através de alguma IA generativa, o que, se for comprovado, pode tirar boa parte do mérito indagador do longa.

Há também em Futuro Futuro uma problemática de metragem e uso de vários personagem em seu curto tempo. O elenco, no entanto, entrega trabalhos convincentes. Além do protagonista vivido pelo expressivo e, ao mesmo tempo, misterioso Zé Maria Pescador, o filme também conta com os talentos de João Carlos Castanha, Carlota Joaquina, Clara Choveaux, entre outros.
Futuro Futuro acaba não fazendo grandes feitos com sua notável estética, parecendo utilizar do subgênero “ficção-científica distópica” para encobrir um roteiro indeciso, que não sabe exatamente o quê está realmente abordando e criticando.


