qua, 19 agosto 2026

Crítica | Honestino

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Em um documentário sobre a vida do militante Honestino Guimarães, preso e desaparecido durante a ditadura militar, o cinegrafista, Aurélio Michiles, combina depoimentos de amigos e familiares, com imagens de arquivo e uma decepcionante encenação por meio da qual recria eventos passados. Na tentativa de fugir de uma formula padrão, mistura três formatos diferentes, como se isso, por si só, bastasse para imprimir originalidade ao projeto, o que nunca chega a acontecer, já que o diretor não chega a inovar em nenhuma de suas abordagens. E não há qualquer problema em não ser inovador, afinal é virtualmente impossível revolucionar a indústria cinematográfica a cada novo filme. Honestino é um bom exemplo de uma obra que apesar de não ser tão criativa quanto seu realizador parece acreditar, acerta o suficiente e em momentos chaves, gerando interesse no personagem objeto de estudo.

Os escassos materiais de arquivo são o ponto alto do documentário – e talvez tivessem rendido um curta bastante superior a esse longa, porém não cabe ao crítico especular sobre o filme que poderia ter existido, e sim analisar aquele, de fato, existente. Através das lembranças traduzidas por imagens reais, nos aproximamos mais intimamente dessa figura pouco documentada, além de reforçar a indissociável relação entre cinema e memória.

Já os depoimentos caem num lugar comum de “cabeças falantes” e, apesar de serem pessoas ligadas ao homem retratado, os entrevistados, que além de pouco carismáticos, ainda são filmados de forma nada entusiasmada, não conseguem transmitir os sentimentos em suas falas. Existem relatos ali supostamente impactantes que acabam perdendo sua força por conta dessa dificuldade do documentárias em captar a emoção por trás do texto. As palavras são pesadas, mas esse peso, por vezes, dissipa-se, tornando-se excessivamente expositivo e pouco sensível.

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Ao menos os depoimentos se encaixam com os materiais de arquivo, complementando-os, o mesmo não pode ser dito sobre as reconstruções atuadas que, além de cafonas, ficam complemente deslocadas do projeto como um todo. As imagens recriadas não invocam verdade alguma e deixam o filme com uma aparência desconjuntada, com propostas que não se conversam. Mesclar formatos até pode funcionar, mas é preciso saber fazê-lo.

Honestino pinta um retrato desse mártir da resistência, com eventuais bons momentos, especialmente quando foca nas imagens de arquivo. Há um certo esmero estético a ser reconhecido também. A despeito do impacto limitado, o filme também está longe de ser um desastre, só poderia ter sido melhor trabalhado.     

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
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