
Influenciados por cineastas como Christopher Nolan, o público atual parece clamar, cada vez mais, por um cinema “realista” – entre muitas aspas porque essa estética dita realista, não o é de fato. Boots Riley vai na contramão dessa tendência com seu novo lançamento – previsto para estrear dia 19 de novembro no Brasil –, no qual o absurdo da narrativa é abraçado, refletindo-se nas escolhas visuais, por meio de roupas coloridas, com cortes geométricos chamativos e perucas espalhafatosas.

Esse retrato carregado de excessos, apesar de inverossímil, não é, de todo, irreal, pois traduz para as telas os sentimentos provocados pelo mundo moderno. Em épocas de minimalismo, Riley entende o poder do exagero e dobra a aposta para criar uma ficção científica satírica com elementos surrealistas, na qual as preocupações com os boletos se materializam em formato de uma literal bola de neve (contas) que persegue a protagonista pela cidade; um demônio sedutor suga a alma das mulheres com quem se relaciona; e um teletransportador multifuncional em formato de aspirador de pó é usado pelas heroinas como arma de combate contra o sistema. Quando a absurdez da trama se iguala a da estética, nada parece fora do lugar e o realizador se permite criar livremente, sem quaisquer amarras formais ou narrativas.
I Love Boosters é uma crítica frontal ao modelo de capitalismo tardio americano que explora a mão de obra do sul global em ambientes com condições de trabalho sub-humanas e se apropria da arte de grupos marginalizados para vender como sendo de autoria de uma mulher branca classe alta. Apesar de diretos e bastante claros, os comentários sociais tecidos nunca soam didáticos, porque o realizador trabalha seus temas a partir da imagem para mostrar, ao invés de verbalizar, e até nos momentos com uma abordagem um pouco mais “palestrinhas”, o humor afiado é usado para quebrar a sensação de expositividade, sem tirar o peso da mensagem transmitida.


