O cinema iraniano, com alguma frequência, concentra seus dramas em locais fechados. Seja uma prisão, um apartamento ou até mesmo o interior de carros que atravessam ruas e avenidas, há um interesse em como o elemento humano vive dentro de uma concentração, seja ela física ou emocional. Mãe e Filho, filme de Saeed Roustaee que estreou no Festival de Cannes em 2025, chega aos cinemas nacionais trazendo uma narrativa cujo melodrama tenta dar conta das diversas emoções de seus personagens.
O longa-metragem tem como protagonista Mahnaz (Parinaz Izadyar), uma enfermeira viúva que luta com seu filho rebelde, Aliyar (Sinan Mohebi), suspenso da escola. As tensões familiares atingem o auge durante a cerimônia de noivado com seu novo namorado, Hamid (Payman Maadi), quando um trágico acidente ocorre. E, como em todo bom melodrama, os conflitos circulam em torno de um retorno à ordem — uma reorganização do mundo onde as dores e as felicidades consigam conviver sob o mesmo teto. Por isso, tanto o plano em que o título surge quanto o plano final conseguem ser tão expressivos: é na reunião daquelas mulheres, mãe e filhas, que o mundo ainda consegue fazer algum sentido.
Roustaee é muito competente ao mergulhar o espectador aos poucos no cotidiano de Mahnaz e Aliyar, desenhando não apenas a relação entre mãe e filho, mas também como ambos lidam com o mundo e com suas próprias emoções. A mãe precisa “segurar as pontas”; o filho tem um temperamento que aponta para a incerteza de suas ações. O cineasta arquiteta bem, cenicamente, como esses personagens se movimentam, sempre em espaços onde é preciso abrir portas ou passar por grades — algumas fechadas, outras à beira de abismos — ou locais em que apenas uma parede divide sentimentos (a relação entre as irmãs) ou presenças (mãe e filho em sua última despedida).

É através desses movimentos que o diretor assinala que uma tragédia familiar carrega consigo tantas outras coisas que poderiam, ou não, ter acontecido. Dentro daquela casa, cujo equilíbrio já estava comprometido, tudo rui após a festa de noivado. O melodrama se instaura tanto em sua característica formal-narrativa quanto na forma como os gestos tomam o centro: aqui, as lágrimas são tanto uma expressão de dor quanto de felicidade.
Se destaco a importância do cenário e dos gestos, devo também levar em consideração outro aspecto central nesse modo estético: a moral. Estamos lidando com uma protagonista cuja moralidade é falha e, portanto, torna-se complexo acompanhar os meandros mentais da personagem vivida por Parinaz Izadyar, seja por sua visceralidade ou por sua contenção. É por meio de suas escolhas de “ataque” para a personagem que ela se torna empática ao público, ainda que suas atitudes sejam ambíguas e, portanto, adicionem complexidade à narrativa.
Todo esse drama é carregado, também, por uma tensão social que age como impulsionador: a masculinidade. Hamid, o noivo, junto ao avô de Aliyar, agem como figuras masculinas que representam tanto uma geração que carrega a violência física quanto outra que provoca medo através das palavras. Ou seja, dentro da casa, é a presença masculina adulta que rompe o equilíbrio. O ato de educar um homem como Aliyar se impõe, então, como o desafio final.
Ao fim, quando Roustaee retorna ao plano que apresenta o título, ele utiliza o vidro com contas matemáticas como o elemento que separa aquelas mulheres do homem que também habita aquele espaço. A semiótica age com habilidade: não existe conta com resultado certo, mas a criação de um rapaz, hoje, passa por ensinar a ele que o exemplo masculino do lado de fora não é válido. Para um melodrama retornar ao seu equilíbrio, um dos fatores precisa sair, para que o produto final não seja eternamente o mesmo.


