Não Existe Almoço Grátis, gravado na transição do governo Bolsonaro para o governo Lula (2022/2023), mostra a organização do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto no preparo das refeições gratuitas distribuídas para os viajantes que foram até o Distrito Federal assistir à posse do novo presidente.
Filmado há quatro anos atrás, o documentário é, inevitavelmente, um reflexo de seu tempo, e traduz em tela o sentimento esperançoso de euforia que dominava a esquerda na época, frente ao resultado das eleições. Hoje, passados, quase totalmente, os quatro anos de governo e em meio a um novo período eleitoral bastante conturbado, essa alegria parece deslocada, para não dizer ingênua. Ainda que se reconheça a importância, nesse momento, de se lançar uma narrativa abertamente propagandista como essa, o longa-metragem acaba destoando da realidade atual.

Um filme tão quentinho e aconchegante quanto as refeições servidas pela cozinha do MTST, que, no entanto, não se propõe a ser nada para além disso. Não há qualquer indicio de um olhar incisivo, crítico, investigativo ou questionador, típico do documentário. Os cinegrafistas, aqui, limitam-se a filmar alguns momentos de ternura na cozinha e colher depoimentos das Bizza, Jurailde e Socorro, escolhidas como peças centrais na narrativa. É o carisma e a personalidade dessas mulheres pretas, símbolos da resistência, que sustentam boa parte do desenvolvimento, suas contradições e traços peculiares imprimem o pouco de identidade da obra.


