ter, 27 outubro 2026

Crítica | NAZA

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Depois de conquistarem o Oscar de Melhor Documentário com ‘Sem Chão’ (2024), Yuval Abraham e Rachel Szor retornam com ‘NAZA’ (2026), uma investigação sobre as operações militares israelenses na Faixa de Gaza. Através de depoimentos de integrantes das próprias forças israelenses, os diretores procuram revelar os mecanismos de vigilância, os critérios para a autorização de bombardeios e a maneira como a morte de civis palestinos é incorporada às decisões militares.

O documentário acompanha uma série de entrevistas realizadas clandestinamente com militares e profissionais ligados à inteligência israelense, que relatam suas experiências durante a ofensiva em Gaza. Com os rostos ocultos e as identidades preservadas, os entrevistados descrevem o funcionamento dos sistemas de identificação de alvos, os procedimentos utilizados para executar ataques e os cálculos que determinam quantas mortes de civis são consideradas aceitáveis em cada operação.

Antes do filme em si, devido a minha posição política e o meu dever enquanto crítico e humanitário, preciso falar sobre o que rodeia esse filme. Como o próprio documentário explora usando imagens de arquivo, o genocídio palestino está acontecendo há 78 anos, uma limpeza etníca de oito décadas em nome de “Deus”. Lembro de 7 de outubro de 2023, das notícias que chegavam. Das imagens, vídeos e relatos que eram dados nos meses seguintes. Apesar deste caso ter sido uma resposta mais forte ao ponto de exterminar qualquer alma palestina que respirasse na Faixa de Gaza, incluindo crianças e recém-nascidos, isso ocorre há 78 anos. Não tenho dúvidas que as imagens mais horríveis e condenáveis que já vi vieram dos covardes bombardeios israelenses sobre a Palestina ocupada depois de 7 de outubro. Nem consigo imaginar o sentimento de qualquer ser humano que tenha visto aquilo de perto e vê até hoje, pois continua em curso. Sabotando a energia de hospitais forçadamente, rastreando palestinos civis, bombardeando casas, prédios, apartamentos, matando animais, invadindo e matando em outros países como Líbano, Síria, Irã, Iraque, Iêmen e, diariamente, ministros, políticos, jornalistas, população e, claro, o primeiro-ministro repetindo falas desumanas que até os oficiais nazistas da mais alta crueldade de Hitler sentiriam inveja. Os judeus, tomados por uma ideologia doentia e condenável como é o sionismo, repetindo os mesmos gestos, falas e atos daqueles que mataram 6 milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial.

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Preferi começar essa crítica desse jeito pois foi exatamente essa a raiva que um ser humano sente assistindo ‘NAZA’. É uma série de entrevistas e a cada nova fala é algo mais sujo. Inspirados no grande documentarista Claude Lanzmann, responsável pelo melhor documentário de todos os filmes, ‘Shoah’ (1985), o filme foca nas entrevistas com pessoas que fizeram parte do genocídio como militares e expert alternando com imagens de arquivo da história da Palestina e de uma câmera que observa a cidade de Tel Aviv durante a noite, acompanhando pessoas dentro de seus apartamentos, assistindo televisão ou simplesmente vivendo suas vidas. Existe uma relação bastante interessante entre essa câmera e aquilo que os entrevistados descrevem. Estamos observando pessoas que não sabem que estão sendo observadas, praticamente reproduzindo o mesmo olhar de vigilância utilizado pelos militares israelenses para rastrear palestinos. A diferença é que, enquanto aquelas pessoas continuam vivendo normalmente, outras são transformadas em números, alvos e estimativas de mortes. E nessa contradição que Yuval Abraham e Rachel Szor encontram algumas das imagens mais perturbadoras do documentário.

O trabalho com as entrevistas também é bastante interessante, principalmente pela maneira como os diretores respeitam os silêncios e permitem que os próprios militares desenvolvam seus relatos. A cada nova explicação sobre os sistemas de vigilância, os critérios utilizados para autorizar bombardeios e a quantidade de civis que poderiam morrer durante uma operação, o filme revela um processo de desumanização e, sim, genocídio, que parece ter sido completamente incorporado à rotina militar. É assustador perceber como a morte de famílias inteiras pode ser discutida através de uma linguagem tão técnica e burocrática, como se estivéssemos acompanhando uma reunião administrativa e não decisões sobre a vida de milhares de pessoas. “Aperto um botão e bombardeio a casa deles”

E acho que essa é uma das maiores forças de ‘NAZA’. O documentário não precisa mostrar constantemente os corpos, os bombardeios ou a destruição para construir seu horror. Existe algo profundamente perturbador na naturalidade com que aquelas pessoas descrevem o funcionamento de um sistema de violência. A própria escolha de esconder os rostos dos entrevistados, mantendo apenas suas silhuetas diante da cidade iluminada, contribui para essa sensação de que estamos ouvindo pessoas que participaram de algo monstruoso, mas que continuam fazendo parte de uma sociedade aparentemente normal. A referência a ‘Shoah’ funciona principalmente nesse aspecto, porque a palavra e o silêncio acabam se tornando instrumentos fundamentais para compreender a dimensão da violência.

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Créditos: Vitrine Filmes/The Guardian

Entretanto, acredito que o filme poderia ir além justamente na identificação dos responsáveis por esse sistema. Entendo a necessidade de preservar a identidade dos entrevistados, até porque seus depoimentos são fundamentais para a investigação, mas existe uma diferença entre proteger uma fonte e deixar de explorar cinematograficamente aqueles que ocupam os principais cargos de responsabilidade política e militar. Benjamin Netanyahu aparece pontualmente através de imagens de arquivo, mas senti falta de uma presença maior dos responsáveis pelas decisões que permitiram a existência e a continuidade dessas operações. Nem que fosse por alguns minutos, utilizando discursos, registros históricos e imagens de arquivo que permitissem dar um rosto àqueles que estão no comando. O filme consegue demonstrar como funciona essa estrutura de violência, mas poderia ser ainda mais contundente ao explorar quem a sustenta e quem possui autoridade para determinar suas ações.

O último ato também merece destaque pela maneira como as imagens das consequências dos bombardeios ganham uma presença maior. Depois de tanto tempo ouvindo relatos sobre cálculos, alvos e estimativas, finalmente somos confrontados com aquilo que esses números representam. E acho que essa escolha funciona justamente porque o documentário passou boa parte de sua duração construindo o contexto dessas mortes. Aquelas pessoas que anteriormente eram tratadas como estatísticas passam a ocupar a imagem, revelando a dimensão humana de decisões que os entrevistados descreviam com tamanha frieza.

‘NAZA’ é um documentário extremamente importante, principalmente pela maneira como utiliza os próprios relatos de integrantes das forças israelenses para expor os mecanismos de violência contra a população palestina. Yuval Abraham e Rachel Szor constroem uma experiência revoltante, que encontra sua maior força na relação entre os depoimentos, os silêncios e as imagens de uma sociedade que continua funcionando enquanto outra é destruída. Mesmo que não dê um rosto claro para culpados, mostra como o Sionismo tem atuado na Faixa de Gaza: genocídio e comparável aos piores regimes que o mundo já viu.

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Rui Filho
Rui Filhohttp://estacaonerd.com
Recifense, cinéfilo e estudante de Cinema desde 2020, graduando em Publicidade e Propaganda. Apaixonado por arte, amante dos esportes, curioso sobre tudo e sempre em busca de algo novo para assistir.
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