Pinóquio (Buratino) acompanha Gepetto, um carpinteiro amoroso e solitário que faz um pedido para uma estrela, ele deseja um filho com todo o seu coração. Suas preces são atendidas na forma de um menino de madeira cheio de curiosidade pelo mundo que o cerca. Esse mundo, porém, tende a ser cruel com a inocente criança.
É curioso pensar na variedade de adaptações do clássico conto de fadas do boneco de madeira que queria ser humano que tivemos nos últimos anos. Desde um remake desastroso produzido pela Disney de seu próprio clássico de 1940 (por Robert Zemeckis, em 2022), até uma versão italiana sombria e cheia de charme que segue a história com fidelidade (por Matteo Garrone, em 2019) e uma exímia animação em stop-motion que aprofunda suas temáticas sem perder a essência da obra original (por Guillermo del Toro, em 2022), Pinóquio vem recebendo um interessante destaque no cinema de diversos países, passando por subgêneros diferenciados e narrativas que procuram transmitir os temas escritos por Carlo Collodi em 1883 para a modernidade. Seguindo a linha de adaptações do clássico da literatura infantojuvenil, Pinóquio (Buratino) de 2026, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 16 de março, apresenta diferenciais para se destacar em meio a tantos outros títulos semelhantes, porém poucas das suas habilidades se comportam a seu próprio favor.

O fato de o novo filme, que conta com a direção de Igor Voloshin, funcionar precariamente se deve a uma falha de decisões. Apesar de apresentar uma proposta visual que ressoa elegância, Pinóquio é indeciso na transmissão de seu conteúdo, misturando as ideias clássicas de Carlo Collodi com as de Aleksey Tolstoi (descendente do cultuado autor Liev Tolstoi), que escreveu a versão soviética da história, Buratino, em 1936. O longa pega elementos de cada autor e transforma-o em uma montanha russa de acontecimentos frenéticos, que adaptam uma linguagem poética para uma releitura infantil que mais parece ter o intuito de entreter seu público alvo do que comovê-lo com suas temáticas e situações.
A ideia de adaptar o texto de Aleksey Tolstoi para o cinema é, de longe, uma das mais ousadas e criativas para distanciar mais uma releitura de Pinóquio dos demais filmes do personagens lançados ano após ano. Porém, a ausência de uma publicidade assertiva em cima da obra, destacando que a nova versão para o cinema é baseado no clássico infantil russo da década de 1930, teria “enganado” menos o público e feito com que o longa não parecesse “mentir” no seu desenvolvimento, ofuscando pontos e personagens importantes do conto de fadas como a Fada Azul, o Grilo Falante, a inocência e o desejo de Pinóquio de ser um menino de verdade e até mesmo o seu nariz crescer. Buratino de Tolstoi não conta com esses elementos e a ausência deles neste filme também não fariam falta de o longa fosse vendido de maneira correta. O título estadunidense até pode aliviar essa questão, já que recebeu o nome de “The Golden Key: A New Pinocchio Story”. The Golden Key é um dos nomes usados por Tolstoi para sua versão da obra.
O conteúdo de Pinóquio/Buratino, originalmente tocante e didático, tende a se perder em meio a demasiadas informações, sequências longas e de ritmo cansativo, beirando a escassez de inspiração. O texto torna-se corrido, ora enfadonho e perdido, reflexo de um roteiro adaptado por 3 profissionais (Aksinya Borisova, Alina Tyazhlova e Andrey Zolotarev) e tenta encontrar nos desinteressantes números musicais um tempero para deixar sua narrativa, já desprovida de inventividade, menos insossa. As músicas são mal distribuídas, pouco memoráveis e inoportunas, chegando a quebrar o clímax e mais atrapalhar do que embelezar a obra.
Falando em embelezamento, Pinóquio de 2026 aposta em um visual clássico que dispõe de belos cenários construídos manual e artificialmente com esmero. Figurinos, maquiagem e a fotografia colorida e cheia de vida também se destacam positivamente. Entretanto, o pecado está na execução do próprio personagem título, que mais parece ter saído de um deplorável meme “brain rot” de inteligência artificial do que de fato desenhado para um modelo 3D. A aparência de Pinóquio, que é dublado pela jovem atriz Vitaliya Kornienko, ocupa um lugar nem um pouco especial no vale da estranheza e a integração entre live action e efeitos digitais é artificial em diversos momentos. Além de visualmente bizarro, a concepção do personagem título é rasa, tornando-o menos interessante do que os próprios coadjuvantes, como Gepetto, interpretado por um Alexander Wiktorowitsch Jazenko inspirado e que estudou bem a persona do bondoso carpinteiro que é presenteado com um filho de madeira, e a própria trupe de teatro do antagonista Karabas (Fedor Bondarchuk), formada por Artemon (Mark Eydelshteyn), Arlequim (Ruzil Minekaev), Pierrot (Stepan Belozyorov), e Malvina (Anastasiya Talyzina), personagem essa que “substitui” a Fada Azul no livro de Tolstoi. O Grilo Falante é aqui substituído por 3 baratas que não têm grande destaque e sofrem o mesmo mal da animação em computação gráfica duvidosa: Alejandro, Toni e Giovani. Irônica e tragicamente, Pinóquio se torna um boneco feito por uma aparente inteligência artificial sem vida, em uma época onde a famigerada IA vêm tomando conta de produções artísticas.

Pinóquio/Buratino não necessariamente mente. Isso se aplica ao personagem e a ideia original do filme, já que pretende ser uma adaptação decente de uma releitura soviética da clássica história que todos nós conhecemos. Mas, devido a falta de informação e inevitáveis expectativas, é quase impossível não sentirmos uma certa “enganação” ao nos depararmos com a obra.


