Mais de 200 anos depois da publicação do romance de Jane Austen e três décadas após a adaptação cinematográfica dirigida por Ang Lee, ‘Razão e Sensibilidade’ retorna aos cinemas sob a direção de Georgia Oakley. Estrelado por Daisy Edgar-Jones e Esmé Creed-Miles, o filme revisita a Inglaterra do início do século XIX através de um olhar bastante íntimo sobre as relações familiares, o amor e, principalmente, as dificuldades enfrentadas pelas mulheres daquela sociedade.
Após a morte do pai, as irmãs Dashwood e sua mãe precisam abandonar a propriedade da família e se mudar para uma casa mais modesta no interior da Inglaterra. Enquanto tentam se adaptar à nova realidade financeira, Elinor (Daisy Edgar-Jones) e Marianne (Esmé Creed-Miles) enfrentam diferentes conflitos amorosos, divididas entre seus sentimentos e as expectativas sociais da época.
Acho que não tem jeito melhor de começar se não falando que existe algo muito bonito na maneira como Georgia Oakley escolhe observar essas mulheres. O filme poderia facilmente se concentrar nos grandes romances, nas festas e nos conflitos sociais que acompanham esse tipo de história, mas a diretora parece muito mais interessada nos pequenos momentos que existem entre tudo isso. As cenas mais sensíveis como Marianne deitada na grama, Margaret observando uma flor ou simplesmente as irmãs convivendo dentro daquela casa são imagens que dizem bastante sobre a intimidade dessas personagens. É um olhar sensível sobre aquela vida no campo, distante de Londres e de uma sociedade que parece constantemente preocupada com dinheiro, casamento e reputação. E acho interessante como esses momentos mais simples conseguem construir uma proximidade muito maior com as personagens do que algumas das próprias situações dramáticas. Existe uma preocupação em mostrar quem são essas mulheres quando não estão necessariamente envolvidas em algum romance, quando simplesmente estão vivendo suas próprias vidas.

E justamente nessa relação entre as irmãs que ‘Razão e Sensibilidade’ encontre sua maior força estilística. Elinor é mais centrada, responsável e preocupada com o futuro da família, enquanto Marianne possui uma sinceridade quase impulsiva, que muitas vezes produz situações bastante cômicas, mas também acaba colocando seus próprios sentimentos em conflito. Margaret, por outro lado, observa aquele universo com a curiosidade de uma criança, embora já demonstre compreender a importância do dinheiro dentro daquela sociedade. São três maneiras diferentes de enxergar um mundo em que as mulheres possuem pouquíssima liberdade para decidir seus próprios destinos. Oakley consegue trabalhar essas diferenças sem transformar as personagens em simples representações de razão ou emoção. A racionalidade de Elinor não significa ausência de sentimentos, assim como a sensibilidade de Marianne não significa incapacidade de compreender a realidade. São duas mulheres que sentem profundamente, mas que encontram maneiras completamente diferentes de lidar com aquilo que vivem.
Acho interessante também como a diretora trabalha a oposição entre o campo e a cidade. tem uma liberdade muito particular na maneira como as irmãs ocupam os espaços naturais, principalmente nos momentos em que estão sozinhas, longe das convenções sociais e dos olhares masculinos. A natureza parece permitir que elas sejam mais espontâneas, enquanto os ambientes sociais exigem uma preocupação constante com comportamentos, aparências e reputações. Entretanto, essa liberdade nunca é completa. Mesmo distantes de Londres, os problemas financeiros continuam determinando suas possibilidades, especialmente quando o casamento representa uma das poucas alternativas de estabilidade para aquelas mulheres. É uma contradição que o filme desenvolve de maneira bastante sensível, utilizando os próprios espaços na mise-en-scène para mostrar como aquelas personagens tentam encontrar alguma autonomia dentro de uma sociedade que constantemente limita suas escolhas.

Mas preciso destacar especialmente Daisy Edgar-Jones. Ela tem uma habilidade muito interessante na maneira como controla sua presença em cena. Seu rosto consegue transmitir sentimentos completamente diferentes, muitas vezes dentro de uma mesma sequência, sem que seja necessário recorrer a grandes gestos ou diálogos. Não sabemos exatamente se Elinor está triste, apaixonada, incomodada ou tentando esconder alguma coisa, porque existe uma constante disputa entre aquilo que ela sente e aquilo que permite demonstrar. E acho que essa contenção torna sua atuação ainda mais impressionante. A personagem carrega uma responsabilidade muito grande sobre a família, e essa necessidade de permanecer racional acaba transformando seus próprios sentimentos em algo que precisa ser constantemente administrado. Daisy consegue demonstrar isso principalmente através dos olhares, dos pequenos movimentos e até da maneira como permanece em silêncio diante de determinadas situações. É uma atuação espetacular justamente porque entende que nem toda emoção precisa ser exteriorizada para ser sentida pelo espectador.
A química com George MacKay, que interpreta Edward Ferrars, também funciona muito bem, principalmente nas trocas de olhares e nos momentos em que os dois parecem comunicar muito mais do que conseguem dizer. Existe uma delicadeza bastante interessante nessa relação, porque o romance não depende necessariamente de grandes declarações, mas da maneira como os personagens se observam e tentam compreender aquilo que o outro está sentindo. E isso combina muito bem com a própria proposta de Oakley, que encontra nos gestos mais simples algumas das imagens mais bonitas do filme. O restante do elenco também funciona muito bem, especialmente Esmé Creed-Miles, que consegue equilibrar a espontaneidade e a vulnerabilidade de Marianne, fazendo com que sua sinceridade seja ao mesmo tempo uma das características mais encantadoras e uma das maiores dificuldades da personagem.
A fotografia de Arnaud Potier acompanha essa proposta através de uma iluminação bastante naturalista. As cenas noturnas, especialmente dentro das casas, utilizam uma luminosidade reduzida e a presença das velas para construir ambientes que parecem pertencer verdadeiramente àquele período e mais rígidos para significar o que aquelas irmãs estavam passando em diferentes níveis. Em alguns momentos, essa escolha me lembrou ‘Barry Lyndon’ (1975), obviamente em proporções diferentes, mas pela preocupação em utilizar a iluminação como parte da construção daquele universo. Há uma escuridão que poderia facilmente ser interpretada como uma dificuldade visual, mas que funciona muito bem dentro da proposta do filme, principalmente pela maneira como acompanha conversas e sentimentos que muitas vezes permanecem escondidos, em como o fogo ilumina um ambiente completamente escuro durante uma conversa entre duas irmãs desesperançosas. A direção de arte e os figurinos também colaboram para isso, principalmente porque existe uma naturalidade nos ambientes que permite enxergar aquelas pessoas para além da elegância normalmente associada aos dramas de época. Tudo parece bastante vivido, desde as casas até os objetos e roupas utilizados pelas personagens.

E o filme também entende muito bem seu próprio humor. Tem uma leveza nas conversas, nos constrangimentos amorosos e nas diferenças entre as personagens que torna uma experiência bastante divertido, mesmo quando a história começa a explorar questões mais dolorosas, como traição, rejeição e dificuldades financeiras. Margaret, por exemplo, frequentemente observa as relações através do dinheiro a partir de certo tempo, algo bastante curioso vindo de uma criança, mas que também demonstra como aquelas preocupações estão presentes desde muito cedo na vida das mulheres daquela sociedade. Marianne, por sua vez, possui uma sinceridade que frequentemente provoca situações cômicas, mas que também acaba expondo sua própria vulnerabilidade. O humor não está separado da crítica social, porque muitas dessas situações engraçadas nascem justamente das contradições de uma sociedade que exige determinados comportamentos enquanto impede que as pessoas expressem livremente aquilo que sentem.
Talvez seja por isso que ‘Razão e Sensibilidade’ consiga transitar tão bem entre momentos divertidos, românticos e profundamente melancólicos. Georgia Oakley entende que essas emoções não precisam existir separadamente, principalmente em uma história sobre pessoas que estão constantemente tentando equilibrar seus desejos com as responsabilidades que possuem. Existe uma sensibilidade muito particular na maneira como a diretora observa essas relações, sem transformar o sofrimento em algo excessivamente dramático ou o romance em uma idealização completa. O filme encontra sua beleza justamente nas contradições dessas personagens, que podem ser racionais e impulsivas, felizes e melancólicas, apaixonadas e frustradas dentro de uma mesma experiência.
‘Razão e Sensibilidade’ é uma adaptação que encontra sua força principalmente na intimidade e no olhar sensível de Georgia Oakley sobre suas personagens. Uma atuação espetacular de Daisy Edgar-Jones, provando porque é uma das grandes atrizes dessa geração, e um elenco que compreende muito bem o peso daqueles personagens dentro dessa releitura. Uma obra que entende que razão e sensibilidade não precisam ser sentimentos opostos, mas diferentes maneiras de compreender o amor, a família e as dificuldades de existir dentro de uma sociedade que nem sempre permite que as pessoas sejam aquilo que realmente desejam.


