Em algum momento das últimas décadas, Steve Carell virou especialista em interpretar homens que claramente precisam de terapia, mas decidiram transformar crise existencial em traço de personalidade. E poucas pessoas fazem isso com tanto carisma quanto ele.
Rooster, nova criação de Bill Lawrence e Matt Tarses, entende perfeitamente o apelo desse tipo de personagem. Greg Russo (Steve Carell) é um escritor de thrillers populares que aceita um cargo temporário em uma universidade onde sua filha, Katie (Charly Clive), trabalha como professora. Oficialmente, ele chega para dar aulas e participar da vida acadêmica. Na prática, desembarca no campus ainda emocionalmente preso ao divórcio e completamente incapaz de não se envolver no colapso do casamento da filha.
Rapidamente, fica claro que o interesse da trama nunca esteve exatamente na universidade, mas na dificuldade dessas pessoas em entender como seguir em frente quando a vida adulta começa a desmontar certezas que pareciam permanentes. Quando mantém o foco nisso, encontra momentos surpreendentemente bons.
A relação entre pai e filha funciona porque evita sentimentalismo excessivo. O afeto aparece em pequenas provocações, silêncios desconfortáveis e naquela dinâmica muito específica entre pais e filhos adultos: gente que se ama profundamente, mas já não sabe mais diferenciar cuidado de invasão. Há uma cena particularmente bonita em que ele aconselha Katie a “ser gentil” ao conversar com o ex-marido pela primeira vez depois da traição. Não porque Archie mereça delicadeza, mas porque algumas frases permanecem dentro da gente por tempo demais. São nesses momentos menores que a produção encontra uma maturidade rara.

Carell sustenta tudo com a segurança de quem domina esse registro há anos. Seu protagonista é inconveniente, carente, perdido e frequentemente ridículo, mas o ator encontra pequenas fragilidades que impedem a caricatura completa. Poucos conseguem transformar vergonha alheia em algo tão melancólico.
Danielle Deadwyler também acrescenta muito como Dylan, professora de poesia que desenvolve uma aproximação gradual com Greg. Os dois compartilham uma química hesitante, socialmente truncada e estranhamente convincente. Funciona muito melhor do que as tentativas mais escancaradas de transformar tudo em uma grande sátira universitária. Algumas das melhores cenas surgem justamente dessas interações menores, quando ninguém parece saber se está flertando ou apenas preso em uma conversa absurdamente desconfortável.
Já John C. McGinley entende perfeitamente o nível de absurdo exigido aqui. Seu presidente universitário, obcecado pela própria forma física, circula pelo campus como alguém sinceramente convencido de que abdômen definido é atributo essencial da liderança acadêmica. O personagem é completamente ridículo, mas McGinley entrega cada fala com convicção suficiente para tornar tudo estranhamente plausível.
O problema aparece quando o tom começa a oscilar demais. Em alguns episódios, Rooster quer ser uma comédia melancólica sobre envelhecimento, solidão e relações familiares. Em outros, mergulha em piadas sobre geração Z, protocolos acadêmicos e jovens hipersensíveis que parecem retiradas diretamente de discussões cansadas da internet de 2018.
Boa parte desse humor soa menos observacional e mais ressentido. Situações envolvendo alunos, linguagem contemporânea e cultura universitária são tratadas como se a simples existência dessas coisas já bastasse como piada. A sátira perde força justamente porque parece interessada demais em reclamar e pouco curiosa em observar.
Isso pesa principalmente nas cenas em sala de aula. Algumas situações ultrapassam rapidamente a linha entre constrangimento engraçado e puro desgaste. O roteiro insiste tanto em transformar Greg em vítima involuntária da modernidade que acaba enfraquecendo aquilo que realmente funciona: as relações humanas.
Katie também sofre um pouco nesse desequilíbrio. Embora o vínculo entre os dois seja vendido como centro dramático da história, ela frequentemente desaparece para abrir espaço a conflitos e figuras bem menos interessantes. O fim de seu casamento deveria carregar um peso maior, mas raramente existe tempo suficiente para permanecer nesse desconforto antes da próxima excentricidade do campus tomar conta da cena.
Mesmo assim, Rooster continua fácil de acompanhar, muito por causa do elenco. Bill Lawrence ainda demonstra interesse genuíno por pessoas emocionalmente bagunçadas tentando desesperadamente parecer funcionais. Nem todas as ideias encontram equilíbrio, mas existe sinceridade suficiente para impedir que tudo se transforme em cinismo.
No fim, a série funciona melhor quando desacelera e permite que seus personagens conversem como adultos cansados tentando entender o que fazer com os próprios fracassos. Nessas horas, encontra algo mais interessante do que suas piadas universitárias: pessoas reconhecíveis tentando descobrir quem são mesmo depois dos cinquenta.


