Crítica | Rua do Medo – Parte 2: 1978

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O primeiro filme da nova trilogia de terror da Netflix, Rua do Medo: 1994 – Parte 1, parte de uma intenção curiosa: desenvolver uma mitologia própria a partir de uma iconografia lotada de referências ao cinema do gênero (em especial os slashers das décadas de 1980 e 1990) e, simultaneamente, criar um ambiente confortavelmente divertido/atraente para o público atual ávido por essa nostalgia de encomenda à – principalmente – Stranger Things

O êxito é apenas parcial. É justo dizer que o 1994 tem uma dinâmica um bocado funcional no tocante aos tropos do slasher, trabalhando o básico, pelo menos, com eficiência. Por outro lado, a criação mitológica em si é não apenas desinteressante como bastante genérica. Os personagens funcionam menos como pessoas e mais como cartilhas vazias de filme de modinha – o que não seria um problema se o drama não fosse levado tão a sério. Em maior e menor grau, todos esses problemas voltam na continuação, Rua do Medo – Parte 2: 1978

Netflix/ Divulgação

O filme dá sequência ao anterior exatamente do ponto em que ele havia parado. Deena (Kiana Madeira) e Josh (Benjamin Flores Jr.) vão à casa de C. Berman (Gillian Jacobs), com quem eles haviam falado no telefone, para pedir ajuda com relação à possuída Samantha (Olivia Scott Welch). Essa visita vai se transformar numa contação de história que leva o espectador lá para o final dos anos 1970. É apresentado o acampamento Camp Nightwing e os conselheiros, campistas e funcionários das cidades de Sunnyville e Shadyside que, após a descoberta de um livro e do ataque da enfermeira Mary Lane a um dos jovens, presencia um massacre orquestrado pela mesma bruxa do filme anterior.

Netflix/ Divulgação

Apesar da fragmentação em vários personagens, Ziggy (vivida por Sadie Sink, mais uma vez ótima) é a real protagonista da história, carregando consigo a relação conturbada com a irmã Cindy Berman (Emily Rudd), os flertes com Nick (Ted Sutherland) e as brigas constantes com as outras jovens do acampamento. Quando as mortes começam, os arcos começam a se cruzar e, consequentemente, questões do passado vão se resolver em meio ao banho de sangue. 

Esse segundo filme até consegue localizar algumas set-pieces de horror mais estimulantes do que o primeiro. Ainda que a separação dos núcleos prejudique muito o impacto isolado das situações, o roteiro e a direção de Leigh Janiak, que dirige e escreve os três da trilogia, fazem o máximo para que as mortes não se tornem repetitivas nem (tão) previsíveis. O uso do gore é mais uma vez justificável em se tratando de um slasher (com referências óbvias especialmente a Sexta-Feira 13), mas não consegue esconder a sua autogratificação em ser malvadinho – em outras palavras, é uma violência gráfica que não consegue provocar o choque simplesmente porque não é articulada com qualquer sensibilidade visual ou tramática.

Netflix/ Divulgação

Na verdade, o real motivo de a escolha pelo gore soar poser é que Rua do Medo – ao menos essas duas partes lançadas até o momento – não parece um projeto pensado para brincar de maneira inventiva com as tradições do terror (como fez Wes Craven por tanto tempo e alguns slashers dos últimos anos) ou mesmo trazer de volta, num formato mais extenso, os elementos clássicos que já fizeram o subgênero tão popular. Parece que tudo foi feito em comitê de algoritmo da Netflix com base nesse gosto nostálgico duvidoso – dramas quadrados de adolescente emburrado um com o outro e histórias de maldição de universo compartilhado.

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Não existe tensão palpável, perigo real ou algum tipo de espirituosidade justamente por causa dessa sensação de cálculo. Mortes que supostamente deveriam ser dolorosas de ver só atrasam mais o andamento de um terceiro ato interminável e com mais referências bem primárias (a de O Iluminado é constrangedora). Mesmo as subversões que a diretora/roteirista acha que está fazendo parecem esquemáticas demais: personagem dá um discurso inspirado só para morrer no plano seguinte. 

Netflix/ Divulgação

O pior é que realmente faz falta um microuniverso de terror que não tenha tantas pretensões além de fazer o seu trabalho, mas daí ter uma pasteurização tão grande como sobretudo este segundo tem, dá uma sensação enorme de desperdício de tempo. Com a trama do terceiro se passando séculos atrás, é possível que eles ainda consigam conceber algum tipo de particularidade cinematográfica que, de repente, eleve o peso dos anteriores, deixando algum tipo de saudade ou comoção. Até agora, no entanto, essa hipótese parece improvável.

Revisão Crítica

NOTA
André Guerrahttp://estacaonerd.com
Recifense, formado em Jornalismo, leonino arquetípico, cinéfilo doutrinador e em constante desconstrução.

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