ter, 6 outubro 2026

Crítica | Simonal

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Rei da Pilantragem. Nunca um apelido (ou fama) foi tão bem utilizado numa produção cine-biográfica, para alicerçar toda uma trajetória de um ícone. Há quem diga que tal título derive da manha, do swing e da lábia. Outros, preferem associar tal patente a atos desmedidos, cruéis e inconsequentes. Seja qual for o contexto, as duas avaliações constroem o gráfico senoidal que foi a carreira de Wilson Simonal.

Dirigido por Leonardo Domingues, conhecido por seus trabalhos A Pessoa é para o que nasce (codiretor) e Serra Pelada (montagem), a obra narra a vida e a carreira do Rei do Swing desde os Dry Boys, passando pelo Big Bang avassalador de sucesso nas décadas de 60 e 70 e alavancando fama internacional, elevando o patamar da música brasileira, até a construção de seu limbo moral, social e profissional.
Falar da obra de Simonal é tão fácil quanto puxar alguém para um Lindy Hop nos anos 50 e tão complexo quanto reinventar o Jazz numa época em que o autoritarismo e a diferença racial e de classes era algo aceitável e comum,como ainda é. Alçou sucesso rapidamente com seu charme e simplicidade (segundo ele, o definia) e, em uma década, fez história na música nacional e internacional, cantando com nomes como Sarah Vaughan, além de brilhar como “empresário de si mesmo” e de ser o menino dos olhos da Shell.

Com roteiro de Victor Atherino, o longa inicia com um plano-sequência extremamente bem executado, fazendo com que se espere algo igual ou melhor no decorrer de seus 105 minutos. Em parte, é cumprido, graças ao carisma dos protagonistas Fabrício Boliveira e Ísis Valverde (ambos de Faroeste Caboclo, também com script do Atherino), porém, acabam caindo na armadilha de roteiro viciosa que é a montagem baseada na nostalgia, problema visto em Minha Fama de Mau (2019) e Bohemian Rhapsody (2018). Desde seu início, Simonal é construído na base da causa e consequência, perdurando, justamente por ser a engrenagem que faz o filme fluir em sua quase totalidade, além de ser as duas palavras que definem a roda gigante que foi a vida do artista. Outro acerto fica a cargo da fotografia: tons coloridos e quentes marcando a era de ouro, frios e melancólicos em seu declínio e trabalhos perfeitos de recriação de ambientes. Em alguns momentos, fica difícil distinguir vídeos da época com as cenas atuais, graças à impecável mão da pós-produção. 

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Por outro lado, todo esse esforço artístico vai se perdendo, a partir do final do segundo ato, com a inserção de cenas avulsas, numa corrida contra o tempo para destruir o perfil de documentário político que estava sendo posto em discussão, numa tentativa fracassada de justificar os motivos por trás dos atos do Wilson Simonal para reaver o que fora perdido. Em seu ato final, vemos algo parecido com o que Bryan Singer fez, ao tentar retirar toda a carga de consequências dos ombros de Freddie Mercury, culpabilizando seu, até então companheiro, Paul Prenter. 

Ao final, Simonal entrega o básico do gênero: ascensão, queda e redenção. Este último é pincelado e sugerido, apenas. Para sua estréia na direção, Leonardo Domingues se sai bem quando o assunto é nostalgia e riqueza de produção, mas derrapa na mudança de ritmo e execução do início da marginalização e ostracismo social em que o cantor viveu em suas últimas décadas de vida. Ostracismo este que, justamente, tem como uma das causas, o rompimento contratual com a Shell, na década de 70. Dura coincidência.

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