sex, 21 agosto 2026

Crítica | Sterling Point (1ª temporada)

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Entrei em Sterling Point sem expectativa nenhuma, só porque a série estava viralizando o suficiente para virar questão de repertório — aquele tipo de “preciso assistir isso porque todo mundo está comentando” que não é bem entusiasmo, é mais dever de casa cultural. O gênero anda saturado a ponto de virar rotina de produção em série: pega uma cidade grande, uma adolescente contida demais, um verão canadense e uma dose generosa de segredo de família, e pronto, mais uma temporada pronta para maratonar. A Amazon tem investido pesado nesse tipo de história teen ultimamente, com uma leva de séries que se parecem bastante entre si. Sterling Point consegue o milagre de se destacar do bolo e me pegar de surpresa.

Annie (Ella Rubin) acaba de descobrir que o avô materno, um homem cuja existência sempre foi um silêncio dentro da própria família, morreu e deixou para ela e para o irmão gêmeo, Connor (Keen Ruffalo), uma casa numa ilha chamada Sterling Point. A mãe morreu quando os dois eram crianças, o pai (Jay Duplass) evita qualquer conversa sobre aquele passado, e Annie toma a decisão que toda adolescente de série toma diante de um mistério: vai atrás das respostas antes que qualquer adulto consiga impedi-la.

A ilha vem com uma meia-irmã desconhecida, Ramona (Amélie Hoeferle), arisca o suficiente para deixar claro que não vai facilitar as coisas para a recém-chegada rica de Nova York; amizades improváveis, como Oona (Bo Bragason) e Ellis (Jacob Whiteduck-Lavoie); romances inevitáveis com a chegada de Rory (Daniel Quinn-Toye); e um passado cheio de lacunas. Parece receita de drama adolescente, mas a série entende que o verdadeiro mistério nunca foi quem Annie vai beijar. É descobrir quem foi sua mãe antes de ser apenas “a mãe”.

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O trunfo real, porém, é o diálogo. Os atores foram liberados para improvisar, e dá para sentir: as falas atropelam, ninguém termina frase de forma limpa, e o resultado soa genuinamente como gente de dezessete anos falando, não como roteirista de quarenta tentando lembrar como era ter dezessete. O relacionamento entre duas personagens também chama atenção justamente porque a série nunca faz dele um grande anúncio. Ele simplesmente existe. Num momento em que tantas produções ainda tratam romances entre mulheres como eventos especiais, Sterling Point prefere a naturalidade.

Nem tudo é perfeito. Tem buraco de roteiro que ninguém tenta esconder direito, adolescente rica sem noção nenhuma de dinheiro de verdade (ninguém aqui trabalha, todo mundo tem barco) e uma sensação ocasional de que a trama abandona um fio de história só porque esqueceu dele. Mas existe uma eletricidade em como a série se recusa a seguir manual, e isso compensa boa parte da bagunça.

O curioso é que Sterling Point parece remar contra uma tendência recente das séries adolescentes. Em vez de apostar que toda experiência juvenil precisa ser um trauma televisionado (é impossível não pensar no desastre em que a última temporada de Euphoria se transformou), ela redescobre o valor de histórias menores: amizades, férias, famílias quebradas e descobertas que parecem enormes apenas porque se tem dezessete anos. Celular quase não funciona na ilha, ninguém está postando nada, e o drama de verdade acontece em conversa cara a cara, do jeito antigo.

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Fiquei surpresa com a vontade de continuar naquela ilha quando os episódios acabaram. Não porque Sterling Point me fez querer voltar aos dezessete anos — ninguém em sã consciência deveria querer isso de novo. Mas porque lembrou que crescer também pode ser uma aventura silenciosa, e que nem toda história adolescente precisa parecer uma tragédia para valer a pena.

Sterling Point está disponível na Prime Video.

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