qua, 5 agosto 2026

Crítica | Ted Lasso (4ª temporada)

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Depois de três anos fingindo que aquele final da terceira temporada era mesmo definitivo, Ted Lasso volta. E a primeira reação é inevitável: claro que volta. Uma série que ganhou treze Emmys e vendeu otimismo para metade do mundo em plena pandemia dificilmente encerraria sua história porque o roteiro decidiu que era hora de dizer adeus. A boa notícia é que o motivo para esse retorno faz mais sentido do que a própria volta. Desta vez, o centro da história não é o Richmond masculino, mas o Lady Greyhounds, o recém-criado time feminino do clube.

Só que essa não é uma mudança qualquer. Antes de qualquer piada sobre metáforas esportivas, vale lembrar que o futebol feminino inglês passou cinquenta anos praticamente proibido de existir. Entre 1921 e 1971, a Football Association impediu que mulheres jogassem em campos filiados, alegando que o esporte era inadequado para elas. Enquanto isso, equipes inteiras continuavam jogando em campos improvisados, diante de um público que insistia em aparecer mesmo sem o reconhecimento oficial. É essa história que dá peso ao novo rumo da série.

Para mérito dos roteiristas, o Lady Greyhounds não nasce cercado apenas de discursos inspiradores. O time enfrenta orçamento reduzido, estrutura inferior à do elenco masculino e uma torcida que ainda trata o futebol feminino como evento secundário. Nada disso aparece como obstáculo genérico de equipe iniciante, mas como consequência de décadas de descaso institucional.

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É justamente por isso que Alice Chilton, vivida por Tanya Reynolds, acaba se tornando uma das personagens mais interessantes dessa nova fase. Ela tem motivos de sobra para desconfiar de Ted: foi preterida para o cargo de treinadora principal em favor de um homem sem experiência no futebol feminino e não demonstra a menor disposição para aceitar tudo isso com um sorriso educado. Felizmente, a série também não espera isso dela.

Reynolds interpreta essa frustração sem transformá-la em amargura caricata. Alice não existe para ser “conquistada” pelo carisma do protagonista em dois episódios. Ela funciona como um contraponto necessário, alguém que entende que boa vontade nunca substituiu investimento, planejamento ou oportunidade. É um conflito que Ted Lasso demorou quatro temporadas para encarar.

Jason Sudeikis continua fazendo aquilo que sempre fez bem. Ted segue distribuindo analogias esportivas, frases de efeito e uma confiança quase irritante na capacidade das pessoas de melhorar. A diferença é que, pela primeira vez, a série parece entender que ele não precisa ser o centro emocional de tudo. O protagonismo acaba naturalmente dividido com um grupo de mulheres que tenta construir espaço em um esporte que passou metade do século dizendo que elas sequer deveriam estar ali.

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Essa mudança também beneficia Rebecca, Roy Kent e Keeley. Durante muito tempo, os três pareciam existir apenas para alimentar romances, crises pessoais ou servir de apoio às jornadas de Ted. Agora, o novo projeto do clube dá a cada um deles uma função mais concreta dentro da história. Rebecca finalmente conduz algo que pertence a ela, e não ao legado do ex-marido ou ao treinador americano que resolveu contratar anos atrás.

Nem tudo funciona com a mesma eficiência. A explicação para Ted abandonar novamente a vida no Kansas continua parecendo mais conveniente do que convincente, e os episódios iniciais ainda carregam um pouco da gordura narrativa que já aparecia nas temporadas anteriores. Alguns conflitos demoram mais do que deveriam para engrenar, como se a série ainda precisasse se convencer de que essa nova fase consegue caminhar sem depender exclusivamente do protagonista.

Mesmo assim, existe uma sensação diferente no ar. Durante muito tempo, Ted Lasso acreditou que gentileza bastava para resolver qualquer problema. Agora, parece reconhecer que boa vontade não substitui estrutura, investimento nem igualdade de oportunidades. Curiosamente, é quando tira um pouco os olhos do treinador e olha para quem passou décadas esperando a chance de entrar em campo que a série finalmente encontra um motivo convincente para voltar.

Ted Lasso está disponível na Apple TV+.

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