ter, 23 junho 2026

Crítica | Treta (2ª Temporada)

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A tensão entre amor e dinheiro virou um dos temas mais recorrentes das narrativas recentes. Entre comédias românticas mais cínicas e dramas de classe cada vez mais explícitos, a ideia de que afeto e capitalismo operam em direções opostas deixou de ser subtexto e passou a ser motor de história. A segunda temporada de Treta entra diretamente nesse território, mas com menos precisão do que já demonstrou ser capaz.

Depois de uma primeira temporada que transformava um incidente banal em um estudo de ressentimento cuidadosamente escalonado, a nova leva de episódios amplia o escopo. Sai o conflito íntimo e quase claustrofóbico entre dois personagens, e entra uma estrutura mais espalhada, centrada em dois casais que orbitam um clube de campo de luxo. Josh (Oscar Isaac) gerencia o espaço com a dedicação de quem quer desesperadamente pertencer àquele universo, enquanto Lindsay (Carey Mulligan), sua esposa, tenta manter intacta uma ideia de status que a realidade já não sustenta com tanta facilidade. Eles vivem próximos o suficiente da riqueza para desejá-la, mas distantes o bastante para nunca realmente alcançá-la.

Do outro lado, Ashley (Cailee Spaeny) e Austin (Charles Melton) representam uma versão mais jovem e precarizada dessa mesma dinâmica, lidando com inseguranças financeiras imediatas e expectativas afetivas ainda em formação. O encontro entre esses dois pares, catalisado por um momento de exposição que rapidamente se transforma em chantagem, dá início a uma escalada de conflitos que, em teoria, deveria tensionar tanto relações pessoais quanto estruturas de poder.

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Na prática, porém, a série se dispersa. Ao contrário da primeira temporada, em que cada ação parecia inevitavelmente ligada à anterior, aqui a narrativa se abre em múltiplas direções, acumulando personagens, subtramas e temas que raramente recebem o desenvolvimento necessário. Há tentativas de abordar desigualdade econômica, envelhecimento, frustração conjugal, ambição social e até as distorções do sistema de saúde americano, mas tudo permanece no nível da sugestão. Pouco é realmente investigado com profundidade.

Essa diluição impacta diretamente o envolvimento emocional. Os personagens são, em sua maioria, difíceis de acessar, não por complexidade, mas por falta de densidade. Lindsay é construída como uma figura fria e distante, Josh como alguém movido por impulsos pouco articulados, enquanto os demais orbitam a narrativa sem ganhar contornos suficientemente claros. Mesmo quando a série tenta humanizá-los, o efeito é limitado.

Ainda assim, há elementos que funcionam. A direção mantém um cuidado visual consistente, o elenco sustenta o material com competência, e a observação de comportamentos, especialmente na forma como relações se transformam em transações, segue afiada. Existe uma percepção interessante de que, nesse ecossistema, cada interação carrega uma negociação implícita, seja emocional, financeira ou simbólica.

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O problema é que essa percepção não evolui. A pergunta central permanece, mas a série parece satisfeita em apenas reiterá-la. Diferentemente de outras produções recentes que exploram essa mesma tensão com mais rigor, como The White Lotus ou mesmo a própria primeira temporada de Treta, aqui falta aprofundamento.

No fim, o que se tem é um drama eficiente, por vezes envolvente, mas que raramente alcança o impacto que seu ponto de partida sugere. Amor e capitalismo continuam em conflito, como tantas outras histórias já demonstraram. A diferença é que, desta vez, a fricção produz menos calor do que deveria.

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