sex, 26 junho 2026

Crítica | Vinagre de Maçã

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Podemos estar testemunhando o surgimento de um novo microgênero na Netflix. Primeiro veio Inventando Anna, a história da golpista Anna Sorokin (também conhecida como Anna Delvey), que enganou a alta sociedade de Nova York ao fingir ser uma herdeira alemã. O conto, estiloso e eletrizante, mostrou a audácia de uma mulher cujo talento e ambição foram mal direcionados, levando a uma inevitável queda. Agora, surge Vinagre de Maçã, trazendo Kaitlyn Dever (Dopesick) no papel da influenciadora Belle Gibson, que construiu um império baseado na falsa narrativa de ter vencido um câncer terminal através de um estilo de vida saudável. Como um personagem da série deixa claro logo no início: “Esta é uma história verdadeira baseada em uma mentira.” E ao contrário de Sorokin, Gibson não foi paga pela recriação de sua história. “Filhos da puta”, ela mesma comenta em cena.

Apple Cider Vinegar. Kaitlyn Dever as Belle in Apple Cider Vinegar. Cr. Courtesy of Netflix © 2024

A narrativa se desenrola entre diferentes períodos de tempo, desde 2010, acompanhando a ascensão e queda de Belle Gibson. Um dos eixos centrais da trama é a rivalidade crescente entre ela e Milla Blake (Alicia Debnam-Carey), uma influenciadora inspirada na falecida Jessica Ainscough. Ambas promovem terapias alternativas para o tratamento do câncer, mas com uma diferença crucial: Milla realmente tem a doença e acredita genuinamente nos métodos não tradicionais que supostamente a ajudaram. Um terceiro arco narrativo acompanha Lucy (Tilda Cobham-Hervey), uma paciente com câncer que se torna seguidora fervorosa de Belle, acreditando nas promessas implícitas vendidas por ela.

Milla é a queridinha do público: tem uma família amorosa, uma boa educação e os recursos necessários para frequentar retiros de bem-estar. Eventualmente, chega ao luxuoso Instituto Hersch, que promete curas milagrosas através de enemas de café e dietas rigorosas – e, aparentemente, funcionam para ela. Além disso, sua aparência se encaixa perfeitamente no padrão do Instagram, ajudando-a a construir sua popularidade.

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Belle, por outro lado, tem uma história diferente. Criada em um lar infeliz por uma mãe narcisista que constantemente a diminui, ela se envolve com um parceiro abusivo e, mais tarde, inicia um relacionamento com um homem estável (Ashley Zukerman). Sua habilidade com tecnologia e um talento nato para manipulação a ajudam a crescer no mundo digital, passando de blogueira a criadora de um aplicativo próprio. Como um dos personagens observa: “Ela não tem amigos, tem anfitriões.”

A série opta por uma narrativa fragmentada, alternando entre diferentes momentos da vida de Belle, misturando fatos retirados de reportagens jornalísticas com elementos ficcionais. Apesar da abordagem interessante, esse formato pode dificultar a imersão do espectador e tornar a narrativa cansativa em alguns momentos. A construção dos personagens também não é tão aprofundada quanto poderia ser, o que pode limitar o impacto emocional da história. Milla representa um tipo de desespero que pode levar à crença em soluções milagrosas, enquanto Belle encarna a busca desesperada por atenção e reconhecimento. No entanto, a série nem sempre equilibra bem essa dualidade, deixando de explorar mais a fundo as motivações da protagonista.

Mesmo ao equilibrar compreensão e crítica, Vinagre de Maçã nunca esquece o impacto devastador da indústria do bem-estar sobre pessoas vulneráveis. Para aqueles que buscam esperança, muitas vezes tudo o que encontram são falsas promessas, enquanto os oportunistas lucram. No entanto, a série evita tomar uma posição mais contundente, deixando algumas questões em aberto. Ao final, não há legendas explicativas sobre o paradeiro atual de Belle Gibson ou sua dívida milionária. Em vez disso, sua versão ficcionalizada, interpretada por Dever, reaparece na tela e simplesmente instrui os espectadores: “Dêem um Google.”

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A minissérie de seis episódios, criada por Samantha Strauss e inspirada no livro The Woman Who Fooled the World, tem um conceito interessante, mas sua execução nem sempre acerta. A crítica à ganância, à carência, à ilusão coletiva e ao autoengano está presente, mas o roteiro exagera em alguns momentos e perde a oportunidade de aprofundar melhor seus temas. Basta dar uma olhada no mundo real das influenciadoras de bem-estar para perceber que a realidade pode ser ainda mais absurda. Vinagre de Maçã tem boas atuações e um tema relevante, mas não entrega todo o impacto que poderia. A minissérie está disponível na Netflix.

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