Crítica | Halloween Kills: O Terror Continua

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No primeiro Halloween (1978), a lenda de Michael Myers aparecia como elemento místico que caracterizava a cidade de Haddonfield. A aura do conhecido menino que matou a irmã e, após quinze anos, retornava à casa onde morou em uma (literal) caminhada de encontro com o passado, consumia a pequena cidade em um terror social de invasão e insegurança. A  mise en scene voyeurista de seu assassino nos cenários suburbanos, a construção imaginária da casa onde morou, a frequente relação entre sua mística e o dia das bruxas – Myers é chamado de Bicho-Papão-, são elementos que dão ao clássico filme de John Carpenter aspectos relacionáveis com diversas histórias assombrosas. Entretanto, o brilhantismo regido por Carpenter está na forma em que o diretor integra o conto à realidade americana da época, apontando para o pavor causado pela crescente onda de violência nos anos 70.

Diferentemente de outros slashers, Halloween acontece em volta da cidade, nas fortalezas particulares chamadas de “casas”. É nessa nessa fobia social que Carpenter acha seu assassino. O Medo de ser vítima da violência, seja ela fictícia ou não, é o que faz de Myers um reflexo muito particular da nossa percepção do perigo e fragilidade perante as constantes agressões do mundo moderno. Um bom exemplo é de uma cena de sua continuação, Halloween 2: O Pesadelo Continua (1981). Na cena, logo após os acontecimentos de seu antecessor, Myers está andando por Haddonfield camuflado por suas vestimentas, justamente por ser noite de halloween. Não é possível distingui-lo dos demais e, mesmo que por alguns segundos, seus atos extremamente violentos, assim como sua figura, não são associados pelas outras pessoas. Se no de 78 Carpenter explorava a ansiedade da invasão em meio a pacificidade do subúrbio, Rick Rosenthal já o integrava em uma representação não do perigo externo, mas de um mal inserido e ativo dentro da sociedade.

David Gordon Green parece simpatizar com a injustiçada continuação e usa seu mote para dar prosseguimento a já confirmada trilogia de filmes que começou em 2018. Por se constituir aos moldes do ícone cinematográfico de 78, a primeira parte realçava as singularidades da franquia enquanto renegava as indesejadas continuações em uma abordagem de soft reboot. Liberto de certos vínculos da obra original, Green desenvolve melhor os conceitos Carpenternianos e transcende toda a mitologia envolvendo a noite dos assassinatos para um caso de histeria coletiva oriunda de uma américa protecionista e ausente de instituições.

Halloween Kills: O Terror Continua/Divulgação

Enquanto evoca ecos do passado que serão trabalhados ao longo da projeção, Halloween Kills: O Terror Continua se localiza exatamente onde seu antecessor tinha finalizado. O breve prelúdio apresentado antes de dar segmento ao núcleo envolvendo Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), sua filha Karen (Judy Greer) e a neta Allyson (Andi Matichak), serve como uma introdução a dinâmica trabalhada por Green e o co-roteirista Danny McBride em um movimento de expandir a evolução do trauma exposto no filme de 2018. As ligações com a trágica noite do terror afetam não apenas as vítimas, mas todo o amparo das bases sociais vigentes dentro de Haddonfield. E essas mesmas bases são desmanteladas para dar lugar a um fervor impulsivo de fazer justiça com ás próprias mãos.

Essa aparente dicotomia entre bem e mal levantada pela atmosfera desse novo longa tem por finalidade evidenciar o anseio pela violência como fruto de uma ambiente predominantemente violento. Ainda que Myers saia de uma casa em chamas em uma clara alusão a sua volta do inferno, são nos reflexos causados pelos seus atos que se pode ver a verdade essência da maldade. A mascara, símbolo característico da franquia, da rejeição de Myers enquanto ser humano, passa a ser o espelho social daqueles que procuram no linchamento o seu prazer particular de fazer jus aqueles que se foram. O dialogo com o sadismo do gênero insinua uma certa hipocrisia do espectador enquanto indivíduo entretido com a brutalidade das cenas. Quando chega na tão esperada explosão de violência em cima do causador de tantas mortes, Green entrega a barbaridade não como um presente, mas uma maldição que carrega toda a perversidade relatada até então.

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Assim como o clássico de 78 tinha elementos que o possibilitavam ser relacionado com histórias de terror, o retrato de uma histeria social em uma noite de halloween pode ser assemelhado à uma crônica de jornal. Em um mundo onde grupos conservadores pregam a violência como único meio de solução para os problemas sociais e, de forma hipotética, essas mesmas pessoas saiam pela noite caçando um assassino brutal, seria nada menos que irônico se todo esse alvoroço terminasse de forma fatal pelas mãos de alguém que realmente saiba usar uma arma. Esse aspecto cómico, já mostrado por Green e McBride no primeiro filme, volta como uma anedota para essas pessoas que (supostamente) poderiam resolver tudo com tacos de baseball e armas de fogo.

Halloween Kills: O Terror Continua/Divulgação

Dentre as ironias, a maior delas surge pelo reencontro com os sobreviventes do filme 78 após se passar mais de 40 anos. Apesar de ser o meio entre o início do “reboot” e o derradeiro Halloween Ends, é nesta interseção que Green encontra uma forma de fechar o ciclo desses personagens que nunca conseguiram sair daquela noite funesta. Marion Chambres (Nnacy Stephens), a enfermeira que teve seu carro roubado na fuga de Myers do sanatório Smith’s Grove ; Lindsey Wallace (Kelly Richards), a menina que teve sua babá assassinada e foi salva por Laurie Strode; Lonnie Elam (Robert Longstreet), o garoto que ficou frente a frente com Myers e sobreviveu para contar história; o xerife Lee Brackett (Charles Chypher), que recebeu a informação da morte de sua filha enquanto tentava entender o que se passava na sua cidade; todos eles, de alguma forma, foram de encontro com o seu fantasma do passado para por fim a agonia de viver com o fardo do trauma. Todos foram de encontro com Bicho-papão.

   

Revisão Crítica

NOTA
Gabriel Lunahttp://estacaonerd.com
Jornalista que se aventura no mundo da crítica de cinema. Gosto de café e filme em preto e branco.

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