Quando estreou em 2019, Euphoria parecia destinada a se tornar uma das séries definidoras de sua geração. A produção da HBO encontrou um espaço raro entre o retrato brutal da adolescência e uma linguagem visual capaz de transformar crises emocionais em espetáculo. Dependência química, sexualidade, saúde mental e identidade eram abordadas sem a distância moralizante comum a esse tipo de narrativa. Havia excessos, mas eles pareciam conectados aos personagens.
Alguns anos depois, a terceira e última temporada retorna com a missão de encerrar essa trajetória. O resultado é menos uma conclusão do que um lembrete de como a série se afastou daquilo que a tornou singular.
O salto temporal leva os personagens para a vida adulta. Rue (Zendaya) continua lutando contra a dependência química. Cassie (Sydney Sweeney) busca reinventar a própria imagem em meio à economia da exposição digital. Nate (Jacob Elordi) tenta construir uma nova vida. Em teoria, é uma evolução natural. Na prática, a sensação é de estagnação. Os cenários mudaram, mas os personagens permanecem presos a versões simplificadas de si mesmos.

O maior problema da temporada é a dificuldade em encontrar um centro emocional. Em seus melhores momentos, Euphoria transformava estados psicológicos em narrativa. O brilho da maquiagem, a trilha de Labrinth, a fotografia saturada e os monólogos de Rue não eram apenas escolhas estéticas; funcionavam como extensões da subjetividade dos personagens. Nesta temporada, boa parte dessa identidade desaparece.
A mudança não acontece apenas na aparência da série. Ela afeta a forma como os personagens são construídos. O que antes parecia uma tentativa de compreender pessoas em conflito dá lugar a uma narrativa mais interessada em situações extremas do que nas emoções que deveriam sustentá-las.
Essa transformação fica particularmente evidente na forma como a temporada trata suas personagens femininas.
Cassie recebe um dos principais arcos da temporada, mas raramente é tratada como alguém com vida interior. A série acompanha suas escolhas, seus excessos e suas humilhações com atenção quase obsessiva, sem demonstrar o mesmo interesse em compreender suas motivações. O que poderia ser uma discussão sobre vulnerabilidade emocional, autoestima e mercantilização da intimidade acaba reduzido a uma sucessão de cenas construídas para provocar reação.
O problema não está em retratar mulheres em situações degradantes. Euphoria sempre trabalhou com personagens em seus piores momentos. A questão é que a temporada parece fascinada pelo sofrimento feminino, mas demonstra cada vez menos curiosidade sobre quem sofre. Muitas vezes, as mulheres da série são observadas como imagens antes de serem tratadas como personagens.
A comparação com The Idol surge quase inevitavelmente. Em ambas as produções, Sam Levinson parece interessado em discutir exploração, objetificação e poder. O impasse é que suas séries frequentemente reproduzem essas dinâmicas com muito mais convicção do que as examinam.
Esse desequilíbrio aparece também na própria estrutura da narrativa. Conflitos surgem em sequência acelerada, enquanto o desenvolvimento emocional permanece superficial. Violência, sexo e choque continuam presentes, mas já não produzem o mesmo efeito. Não porque o público tenha se tornado menos tolerante ao excesso, e sim porque o excesso deixou de revelar algo sobre os personagens.
As influências de filmes policiais e westerns modernos se tornam cada vez mais evidentes. A escala aumenta, o universo se expande e novas figuras entram em cena. Ainda assim, a série raramente encontra algo tão interessante quanto as conversas entre Rue e Ali ou a sessão de terapia de Jules, episódios que permanecem entre os momentos mais fortes de toda a produção justamente por desacelerarem e permitirem que seus personagens existissem além do trauma.
Nem tudo deixa de funcionar. Zendaya continua sendo uma presença magnética, capaz de encontrar nuances mesmo quando o roteiro insiste em repetir conflitos já conhecidos. Colman Domingo retorna como um dos poucos personagens capazes de trazer alguma gravidade emocional à narrativa. Adewale Akinnuoye-Agbaje também adiciona presença e tensão sempre que aparece. Em muitos momentos, porém, o elenco parece trabalhar para preencher espaços que o texto deixa vazios.

Visualmente, Euphoria continua impressionante. Poucas séries contemporâneas possuem o mesmo domínio de composição, iluminação e escala. Mas a estética já não consegue compensar aquilo que falta por baixo dela. A fotografia continua encontrando beleza em quase tudo. A narrativa, nem sempre.
Talvez o aspecto mais frustrante desta temporada seja a sensação de que ela perdeu contato com aquilo que a diferenciava. O mundo mudou nos anos em que a série esteve fora do ar. Seu público amadureceu. Seus atores cresceram e expandiram suas carreiras. Euphoria, por outro lado, parece presa à própria imagem.
No fim, a série encerra sua trajetória como uma versão ampliada de suas qualidades e de seus defeitos. Ainda existe talento diante e atrás das câmeras. Ainda existem momentos de força dramática. Mas também existe uma produção cada vez mais convencida de que intensidade e profundidade são a mesma coisa.
Quando estreou, Euphoria parecia interessada em entender seus personagens. Nesta temporada final, muitas vezes parece mais interessada em observá-los. A diferença é pequena no papel, mas enorme na tela.


