Lembra bastante algum projeto de faculdade de cinema, mas não em um sentido de degradação para esta obra, é mais uma questão em relação às resoluções, em como ele constrói sua linguagem e mise en scene. Desde a dica de como a obra irá finalizar ou até sua construção do horror corporal e fantasmagórico que persegue a protagonista.
O filme de terror Insaciável (Saccharine) acompanha Hana (Midori Francis), uma estudante de medicina obcecada pela perda de peso. Influenciada por uma amiga, ela inicia um programa extremo com pílulas milagrosas que escondem um segredo macabro: os comprimidos são feitos de cinzas humanas. Ignorando o fato, ela mergulha em um pesadelo de consequências irreversíveis.
Um fato interessante da produção é sua semelhança com duas realidades, uma fictícia e outra bastante comentada no presente momento. A primeira é a comparação inevitável com “A Substância”, filme recente de body horror e que em diversos momentos existe essa constante semelhança, até em alguns padrões estéticos da obra em si. Apesar de uma abordagem sobre o envelhecimento e esquecimento na indústria, aqui existe essa semelhança de pressão estética, principalmente com a figura feminina. A outra comparação se dá justamente por conta do Mounjaro e seu aumento constante no uso por diversas pessoas, sejam prescritas por médicos ou não, mas auxiliando nesse processo de emagrecimento. A semelhança interessante é justamente esse caminho “mais fácil” que a protagonista busca ingerir as cinzas de uma paciente morta e pular o processo mais difícil como exercícios ou dietas, essa comparação se torna interessante justamente pelos inúmeros casos envolvendo esse medicamento em que as pessoas simplesmente passam do limite por pura pressão estética e um desespero para se encaixar nos padrões.

E o monstro do filme se dá nessa relação dependente entre Hana e o cadáver em sua faculdade de medicina. Ela precisa das cinzas para seu processo de emagrecimento enquanto o monstro (fantasma?) necessita que ela coma quantidades enormes de comida em troca de seu emagrecimento rápido. O processo de imersão da protagonista nesse mundo é interessante, uma vez que existe o estranhamento ao descobrir as substâncias que são carregadas no produto que uma conhecida sua apresentou, mas aos poucos ela se torna tão focada e supresas com os resultados que não se importa mais nos meios, mas nos resultados.
E a pressão estética se dá por vários fatores na vida de Hana. Seja por meios mais óbvios como nas redes sociais e os constantes corpos “perfeitos” estampados em sua cara. Seja por um interesse em sua professora na academia e talvez por uma certa inveja da perfeição alcançada por ela e uma aceitação de um relacionamento apenas se ela conseguir chegar na perfeição também importa por ela mesmo. E tem o fator familiar, seu pai possui obesidade mórbida, as constantes cenas são muito mais discretas e representam um apresso da personagem em ao menos chegar perto de seu pai, tanto que sua aparência só é 100% revelado apenas no terço final do longo. Essa pressão com a personagem vai cada vez mais aumentando e seu pai se torna um dos responsáveis indiretos dessa condição insuportável que Hana se coloca. Apesar do filme não explorar muito bem esse relacionamento entre pai e filha, parece que ele meio que abandona isso no terço final e fica sem uma ideia clara de resolução.

E no final, o filme segue aquela aversão ao desfecho feliz e enganoso que quer passar ao seu público. É um sentimento que permanece por todo o filme de uma obra com boas ideias e coincidências modernas, interessantes, mas um desenvolvimento que muitas vezes pode se repetir por conta de algum diálogo expositivo ou uma atmosfera de terror que possa soar pretensiosa. Em seus momentos de terror que podem funcionar nesse equilíbrio da batalha mental de Hana, onde existe a pressão estética, mas também conselhos amigos para ela passar do limite por algo que apenas a esgota. Insaciável é essa prova de que quando você busca o caminho mais fácil ou moralmente questionável você irá pagar o preço, cedo ou tarde.


