Baseado no romance homônimo de Daniel Kraus, ‘Dentro da Baleia’ (2026) é o novo filme do diretor Brian Duffield, responsável por ‘Ninguém Vai Te Salvar’ (2023). Estrelado por Austin Abrams e Josh Brolin, o longa aposta em uma proposta bastante curiosa dentro do gênero de sobrevivência, colocando seu protagonista em um dos ambientes mais improváveis e claustrofóbicos possíveis: o interior de uma baleia.
Após a morte de seu pai, Jay Gardiner (Austin Abrams) decide mergulhar no oceano em busca de seus restos mortais. Entretanto, durante a expedição, acaba sendo engolido por um enorme cachalote, ficando preso em seu interior com pouco oxigênio e praticamente nenhuma possibilidade de escapar. Enquanto tenta sobreviver, Jay precisa enfrentar também as lembranças e os conflitos de sua relação com o pai (Josh Brolin).
Sem dúvidas, o primeiro grande acerto de ‘Dentro da Baleia’ está no trabalho sonoro, especialmente na edição e mixagem de som. Antes mesmo de Jay mergulhar, o oceano já é apresentado como um ambiente extremamente violento somente com o barulho das ondas bem agressivo. Existe uma rigidez interessante na maneira como Duffield trabalha esse som, que continua presente mesmo quando o personagem está dentro da baleia. Os ruídos, a respiração, os movimentos da criatura e os próprios silêncios ajudam a construir uma sensação de desconforto que funciona muito bem na grande parte da rodagem. O som trabalha especialmente a dualidade do oceano na vida de Jay, este que cresceu com seu pai vivendo á deriva, sempre ensinando tudo sobre baleias e sobre os oceanos e agora conflitando com o quão assustador ele é.

E essa relação com o ambiente também aparece na montagem de Pietro Scalia e na fotografia de Aaron Morton. Os cortes mais lentos, os planos-detalhes nos olhos, nos dentes e nas feridas de Jay acabam aproximando o espectador de uma experiência bastante física, direcionamento o qual o marketing do filme investiu pesado desde o começo. Há uma preocupação em explorar aquele espaço limitado e fazer com que cada movimento pareça doloroso, criando sequências realmente claustrofóbicas. O problema é que um filme com uma proposta dessas precisa conseguir sustentar sua tensão, e ‘Dentro da Baleia’ começa a perder essa força quando passa a repetir os mesmos recursos.
Jay quebra o pé, tem os tímpanos comprometidos, sofre uma lesão brutal na mão esquerda e continua enfrentando situações cada vez mais extremas. É uma característica comum dos filmes de sobrevivência colocar seus protagonistas em condições praticamente impossíveis, mas aqui chega um momento em que o sofrimento deixa de aumentar a tensão e começa a diminuir nossa percepção de perigo. Quando praticamente todas as esperanças já foram retiradas do personagem e ainda restam 30 minutos de filme, a narrativa parece não encontrar novas possibilidades para desenvolver aquele conflito.
O último ato tenta mudar essa direção ao explorar uma dimensão mais sentimental e espiritual da jornada de Jay com seu pai. E não acho que essa escolha isoladamente seja necessariamente um problema, principalmente porque a própria estilística do filme abre espaço para reflexões sobre morte, luto e sobrevivência. Entretanto, a maneira como Duffield desenvolve essas ideias acaba produzindo um efeito bastante diferente do tom grave que vinha construindo. As conversas com a figura do pai e os constantes flashbacks parecem mais uma longa alucinação de um homem à beira da morte do que uma construção simbólica realmente envolvente, algo que acaba tomando muitos minutos no final do filme e acaba perdendo o tom da obra.

Existem imagens visualmente interessantes, especialmente no confronto entre a baleia e as orcas, mas essa sequência acaba sendo breve diante do tempo dedicado às lembranças e aos diálogos. O filme abandona parte da força sensorial que havia construído para explicar emocionalmente aquilo que poderia continuar sendo desenvolvido através da imagem e do som.
Apesar de passar do ponto em seu último ato, ‘Dentro da Baleia’ é um bom suspense de sobrevivência, especialmente pela maneira como utiliza o som, a montagem e o espaço para construir sua claustrofobia. Brian Duffield encontra momentos realmente tensos dentro de uma proposta bastante absurda, mas perde parte dessa força quando tenta transformar o sofrimento físico de Jay em uma experiência espiritual que não possui o mesmo impacto cinematográfico. Ainda assim, acredito, é uma experiência digna para ter no cinema, principalmente pelo trabalho sonoro impactante tanto tecnicamente quanto dentro da mise-en-scène.


