
A diretora Jane Schoenbrun traz consigo em sua filmografia comentários sobre a relação do ser humano com que consome. Se em ”Eu Vi o Brilho da TV” ela busca essa conexão superficial com a televisão e uma busca em aceitação e identidade. Em “Vamos Todos à Exposição Mundial” de 2021, a diretora opta por abordar a relação dependente da nova geração com a internet e o isolamento que permite uma aproximação com lados esquisitos da rede. Agora é a vez de um lado digamos mais “nerd” da cineasta, ao abordar a cultura do slasher e todo um comentário acerca das decisões hollywoodianas com suas franquias.

Após anos de sequências desleixadas, a franquia Camp Miasma é entregue a uma jovem diretora entusiasmada para ser revitalizada. Mas ao visitar a estrela do filme original, hoje uma atriz reclusa e envolta em mistério, as duas mergulham em um mundo ensanguentado de desejo, medo e delírio.
Algo brilhante ao longo do filme, especialmente em sua introdução, é a criação do imaginário desta franquia fictícia do longa. Baseando-se principalmente em “Sexta Feira 13”, a obra se inicia em uma montagem interessantíssima ao mostrar toda a história da franquia Acampamento Miasma e todo seu impacto na cultura. Desde as inúmeras continuações esquisitas até o icônico assassino, aqui apelidado de “Little Death”, com um duto de ventilação na cabeça, tal qual o icônico vilão de “Silent Hill” Pyramid Head. É uma introdução deliciosa para ambientar o filme e proporcionar todo o imaginário envolvendo este tipo de slasher nos anos 80 e seu impacto no cinema.
A diretora estabelece muito bem esses comentários envolvendo a indústria cinematográfica como um todo. Desde definir este tipo de franquia com o termo morto vivo onde são de tempos em tempos ressuscitadas e descaracterizadas, representando um limite criativo da indústria e ficando nesse ciclo com diversas franquias no cinema, especialmente o gênero que mais sofre disso, o terror.
Esse lado cinéfilo da diretora é muito bem-vindo e traz realmente discussões pertinentes acerca dessa mitologia do horror, traz uma sensação de amor com o gênero e consegue entregar momentos divertidos desse imaginário de curiosidades infinitas dos filmes.

Outro ponto interessante é o embate de gerações que ocorre entre as personagens Kris e Billy. Justamente por trazerem pontos de vistas e problematizações diferentes acerca não só do filme Acampamento Miasma, mas diversas coisas, desde relacionamentos, escolhas, etc. A diretora iniciante Kris revela seu amor pela franquia, mas também repreende decisões transfóbicas inseridas no terror, tal qual acompanhamos quando assistimos boa parte do clássico filme. Por outro lado, a atriz Billy ressignifica para kris momentos icônicos do filme, tal qual a cena de sexo e perda da virgindade da protagonista marcada pelo olhar que impactou a diretora quando assistiu o longa na adolescência. É um relacionamento que cresce e traz camadas de desejos, mas também uma espécie de manutenção para um problema particular de Kris envolvendo seu lado sexual. O relacionamento acaba perdendo espaço para um desenvolvimento justamente por conta da resolução do terceiro ato.
O último terço do longa é tomado pela metalinguagem, e acaba contando de tudo, alterando o tom do filme e abraçando o mais surrealista possível em sua própria maneira. Não só por combinar cenários fake digitais com aspectos mais envelhecidos desde o início do filme, mas por transformar o filme dentro do filme e dentro do filme. Ele quebra uma linha que estava sendo traçada de ressignificação do slasher e comentários da indústria e abraça uma lógica que o próprio filme menciona de “Novo Pesadelo”, clássico filme metalinguístico de Wes Craven com sua franquia “A Hora do Pesadelo”. E por mais que exista uma intenção ali com o desenvolvimento da relação das duas e um cunho de sexo/desejo que a personagem da Billy tenha mencionado, o filme está inflado com tantas ideias e apresentações que parece que cria algo pretensioso ao seu final e que não consegue dar conta. Por mais que a metalinguagem estivesse nos cantos do filme desde já.
A diretora Jane Schoenbrun traz um filme divertido envolvendo essa brincadeira dos universos do slasher e um domínio muito inteligente das franquias icônicas do cinema de terror. Fora ótimos comentários e sempre bem-vindos sobre o esgotamento criativo de Hollywood e esse apelo desesperado em ressuscitar sagas infinitas. Acaba pecando por justamente querer juntar diversas ideias e ao seu final tomar um caminho que mais tira o gás do filme do que realmente o preenche. De todo um geral, um projeto divertido e mais uma camada de sua recente filmografia caracterizada por um traço marcante e com personalidade da cineasta, com temas recentes e importantes para a cultura geral.


