Crítica | Alerta Vermelha

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A indústria cinematográfica, embora colha bons frutos, é regida pelo capital. Se bem observado, muitos dos grandes sucessos são derivados de imensos investimentos, que, por sua vez, dão retorno em forma de salas de cinema lotadas e um bom cachê para os envolvidos. Vingadores: Ultimato (2019), desfecho de uma das franquias mais custosas de todos os tempos, demandou impressionantes 356 milhões USD, mas conquistou bilhões de espectadores ao redor do globo. Avatar (2009), outro filme milionário, fez 237 milhões USD se transformarem em mais de 2 bilhões USD de bilheteria. Agora, em Era de streaming, a Netflix lança seu maior gasto: Alerta Vermelho (2021), de Rawson Marshall Thurber. Porém, apesar da repercussão de um longa-metragem poder ser contada pelo número de ingressos – ou visualizações, no caso da Netflix -, será sua qualidade proporcional a sua despesa de produção? Avatar e Vingadores dividem opiniões até hoje quanto aos seus caráteres como obras artísticas. Com Alerta Vermelho isto mudará?

John Hartley (Dwayne Johnson) é um investigador do FBI acionado pela Interpol após o “alerta vermelho” ser emitido. Isso significa que seu trabalho é requerido em uma missão crucial, no caso, a de prender Nolan Booth (Ryan Renolds), um procurado ladrão de arte que coleciona roubos como o de uma valiosa peça em um museu de Roma, evento no qual os dois se conhecem. Contudo, ao andar da história, Hartley e Booth precisam se aliar para encontrar a verdadeira maior ladra de arte do mundo, conhecida apenas como “Bispo” (Gal Gadot). Com intenções distintas, os homens se dispõem a viajar por diversos países atrás da criminosa em uma busca baseada em interesses, atitudes e situações um tanto duvidosas.  

Apresentando um “quê” do estilo espionagem, com toques musicais a la 007 e Missão Impossível, Alerta Vermelho segue pelo ritmo da ação a qualquer custo. Sem freio, o longa-metragem circunda tanto lutas corporais quanto saltos, explosões, carros colidindo, etc., trazendo elementos típicos do gênero em um formato de base simples, mas suficiente para a exposição de um tom aventuresco. Os embates físicos, por exemplo, são acompanhados pela clichê técnica dos cortes rápidos, alguns realizados com vestígios de planos em posições inusitadas e ângulos contra-plongée (de baixo para cima) laterais – por onde, aliás, poderiam ter explorado para não cair na mesmice. No momento em que Booth e Hartley enfrentam “Bispo”, é possível alinhar um aprimoramento estético com a iluminação que auxilia na projeção das sombras que contrastam com as cores do local, como o vermelho, e, assim, ter uma sequência diferenciada. Contudo, a tendência não se concretiza conforme a obra se estende.

 Ao pular de uma cachoeira, de um carro em movimento, de uma ponte em chamas, ou semelhantes, os personagens de Alerta Vermelho arriscam a veracidade do longa-metragem juntamente com suas vidas. A computadorização dessas ou de outras ocasiões – por si só absurdas – não concentram a autenticidade que deveriam, dado que concedê-las algum tipo de verdade já seria, no mínimo, uma tarefa difícil. Além do mais, outra questão que contribuiria para a entrada do público no universo do filme de maneira intensa e fiel, está na superficialidade do roteiro. Podendo ser resumida como uma corrida para se apossar de um artefato histórico e artístico, a narrativa não se desafia nem sai de sua zona de conforto. Na verdade, o enredo engata o modo de plot twists constantes, majoritariamente no terceiro ato, para alertar ao espectador que ele pouco sabe sobre Booth, Hartley e “Bispo”, ou sobre a procedência de suas ações. Independente desse intuito, é razoável o fato de que nenhuma surpresa torna a obra surpreendente. Até porque não é novidade algo que já se imaginava.

A despeito do que Alerta Vermelho promove, seu trio de protagonistas, nomes fortes em Hollywood, são apostas quase certeiras para que um filme ganhe a simpatia de quem o vê. Parte do carisma dos três, contudo, é apagado por conta de toda falta de imaginação que Alerta Vermelho exibe. Ryan Reynolds, dono de papéis que criaram a sua volta uma aparência divertida e amigável, aqui modifica-se para uma figura que beira o patético, proferindo piadas fora de hora e de um humor, por vezes, infantil. Gal Gadot e Dwayne (ou The Rock) fazem o necessário para não caírem em uma posição degradante ou capaz de inferiorizar o que representam como intérpretes, por mais que The Rock, especialmente, tenha manifestado seu lado dramático em oportunidades mais tímidas fora desta obra. 

Ainda que seus personagens tentem agregar um norte promissor, o filme, de direção de Rawson Marshall Thurber, se deixa levar pelo cômodo, mas garante uma virtude ao fazer valer o orçamento, pelo menos com as belas imagens. Servindo de tour por paisagens tropicais ou glaciais, a câmera prioriza os cenários naturalmente exuberantes ao movimentá-la em drones e planos aéreos, esforçando-se para fazer jus ao campo financeiro consumido. Logo, o afinco de Marshall, feitor de Família do Bagulho (2013), e sua equipe parece estar presente nesta propriedade, porém é escassa a inventividade em pontos que fariam o longa-metragem crescer, até mesmo na maneira de lidar com a própria ação. A escolha de mais uma vez concretizar episódios inimagináveis até hipoteticamente, apenas para conferir a ação descrita na categoria da obra no catálogo da Netflix, pode se mostrar falha.

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Alerta Vermelho tem em mãos Gal Gadot, Ryan Reynolds, The Rock e milhões de dólares. Porém, o potencial e as ferramentas que poderiam fazer o filme ser memorável, escaparam do controle de Rawson Marshall Thurber. Sua opção de ir pelo convencional e de encher os olhos do espectador – e a tela que o mesmo assiste – com bombas, tiros e mirabolantes escapadas, seria um bom método caso o cineasta soubesse usá-lo. O que ocorreu estava na contramão disto: uma mistura de vontade de ser enérgico e grandioso, utilizando mais o irreal do que o ideal. Acontece que no cinema, que lida com a ilusão, nada cumpre a função de formular o elo com o público além do reconhecimento de algum tipo de realidade, mesmo nas tramas mais fantasiosas. E mesmo no gênero de ação, que, na maioria de seus exemplares, não foge do mundo terrestre. Portanto, o trabalho de Marshall, em seu lugar de descanso e seu encosto no alto custo de produção, oferece à audiência uma experiência vazia, que nenhum “milhão” consegue comprar. 

Revisão Crítica

NOTA
Laisa Limahttp://estacaonerd.com
Uma mistura fictícia de Grace Kelly, Catherine Deneuve e Brigitte Bardot versão subúrbio carioca do século 21.

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