qui, 18 abril 2024

Crítica | Godzilla e Kong: O Novo Império

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Quando estamos tratando de Godzilla e toda sua mitologia, acredito que há três principais núcleos que estão presentes nos filmes tanto japoneses quanto estadunidenses: A mitologia, a família e a ação. Na história de todas as adaptações do personagem para o cinema, os projetos japoneses sempre tiveram mais êxito em trabalhar melhor com esses núcleos, sempre interligando eles e realizando uma experiência muito forte nas cenas de combate mas também emocionalmente. Longas como ‘Shin Godzilla’ (2016) e ‘Godzilla Minus One’ (2023), este sendo o atual vencedor de Melhores Efeitos Visuais do Oscar,  mesmo custando dezenas de vezes menos que os filmes hollywoodianos, possuem um peso emocional e até estético bem superior a qualquer coisa do personagem feita pelos estadunidenses na última década.

No geral, os filmes da franquia produzidos nos EUA sempre tendem a decair bastante em algum desses núcleos citados. ‘Godzilla’ (2014) têm enorme impacto estético e na relação dos personagens, mas a ação é bem problemática. Já em ‘Godzilla: King of Monsters’ (2019), a ação e as relações familiares são potentes, mas não há muito da mitologia que acaba sendo explicada em parte apenas por diálogos expositivos em cenas feitas só para isso.

créditos: Warner Bros./ Divulgação

Esse equilíbrio só é encontrado mesmo nas produções japonesas, sejam os primeiros filmes da década de 50 como ‘Godzilla’ (1954) ou os mais recentes que já citei. Isso se dá, em grande parte, pelos diretores japoneses possuírem sensibilidade com o tema, especialmente lembrando o contexto do Japão pós-Segunda Guerra Mundial. Um monstro com poder nuclear aterrorizando, por exemplo, Tóquio após as bombas de Hiroshima e Nagasaki é algo muito impactante para aquela sociedade.

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Nessa continuação de ‘Godzilla x Kong’ (2021), o diretor Adam Wingard procura investir mais na mitologia, tanto do lado dos titãs como do lado humano, mesmo que isso signifique poucas linhas de diálogo. E essa diferença é nítida.  O desenvolvimento de personagem do Kong, mesmo que com nenhuma palavra, agrega mais a experiência do que toda a construção feita sobre a Jia, interpretada pela Kaylee Hottle. Enquanto Kong vai evoluindo seu papel e vai redescobrindo-se dentro da Terra Oca através de uma fotografia bem direta, sempre o filmando de frente e com planos fechados em momentos de combate e alternando para planos gerais em momentos calmos, para mostrar a sua solidão mesmo em um mundo cheio de titãs, a evolução da Jia em busca de “descobrir seu lugar” é puramente expositiva, com diálogos e narrações o tempo todo, além da montagem forçar essa conexão entre ela e o Kong, mas nunca funciona pois nós só estamos realmente conectados com o gigante da Ilha da Caveira.

Dentro dessa ideia de buscar mais a história, há momentos bem emblemáticos que juntam tanto a história dos titãs como a humana. Além de haver cenas do Godzilla no mundo humano lutando em locais como Roma e dormindo no Coliseu, no primeiro encontro entre Godzilla e Kong o campo de batalha é nada mais nada menos que as pirâmides do Egito. Com exceção do clímax, não há personagens humanos interrompendo os combates, algo muito importante para uma obra que quer justamente “falar menos e mostrar mais”.

Além da Jia, temos outros personagens humanos, mas poucos. Apenas três principais: Dra. Ilene Andrews (interpretada por Rebecca Hall, Bernie (interpretado por Brian Tyree Henry) e Trapper (interpretado por Dan Stevens). O ponto alto é a relação cômica entre eles, especialmente entre Bernie e Trapper, que acabam trazendo bons momentos engraçados durante o filme sem que incomode a experiência. Como a primeira metade do filme é muito voltada para o mundo humano e para esses diálogos mais expositivos sobre a Jia e para essa comédia entre os outros personagens, a rodagem demora um pouco para engrenar de vez. 

A proposta do filme vai ficar nítida apenas quando há uma sequência com Kong e um pequeno macaco, conhecido como Suko. Esse simples desenvolvimento entre Kong e Suko, novamente, sem ter uma única sílaba em tela é mais potente que toda a falação ao redor de Jia, o seu “destino” e o papel de Ilene Andrews como mãe dela. A grande qualidade e defeito de Wingard se encontra nessas duas perspectivas, pois mostra o que ele queria fazer no projeto (focar na mitologia dos titãs, nas batalhas) e o que ele tiraria se tivesse 100% da autoria do projeto (personagens como Jia poderiam até existir, mas não iriam prejudicar tanto a experiência como acabou ficando no projeto).

Reduzindo o elenco humano e focando em um ar mais contemplativo para a história dos titãs, ‘Godzilla e Kong: Um Novo Império’ acaba cometendo o mesmo erro que alguns dos seus projetos estadunidenses antecessores, como no desenvolvimento entre a família (Ilene, Jia e sua verdadeira casa), mas Wingard consegue se superar no uso cômico dos outros personagens e na abordagem para os titãs. 

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