
Dos Estúdios LAIKA, responsáveis por Coraline e o Mundo Secreto, O Bosque Selvagem chegou aos cinemas de todo o Brasil nesta quinta-feira (29), com distribuição da Imagem Filmes. Resultado de 16 anos de desenvolvimento, a animação em stop-motion dirigida por Travis Knight e roteirizada por Chris Butler é baseada no romance Wildwood, escrito por Colin Meloy, vocalista e principal compositor do The Decemberists. O livro foi ilustrado por sua companheira, a artista Carson Ellis, que assina as capas dos discos do grupo desde o primeiro lançamento. Nos créditos finais, o filme traz ainda uma canção inédita da banda, “The Better Part of Bravery”.
The Decemberists: os palcos, as livrarias e os cinemas
A relação entre a banda e o filme não é de inspiração indireta: livro e discografia saíram das mesmas mãos, da mesma cidade e, em boa medida, da mesma floresta.
Meloy e Ellis se conheceram na Universidade de Montana, onde ela estudava pintura e chegou a desenhar cartazes para a banda que ele tinha na época. Em 2000, Meloy deixou o Tarkio, seu grupo em Montana, mudou-se para Portland, no Oregon, e formou o The Decemberists, nome inspirado na Revolta Dezembrista, levante contra o czar na Rússia de 1825. Ellis assinou a arte do primeiro EP, 5 Songs (2001), e do álbum de estreia, Castaways and Cutouts (2002), e segue como ilustradora da banda até hoje. Em 2024, ao apresentar a capa de As It Ever Was, So It Will Be Again, ela contou ter ilustrado as capas dos nove álbuns de estúdio do grupo e de dezenove lançamentos no total, somando EPs e singles.
O embrião de Wildwood é praticamente contemporâneo da banda. Por volta de 2000 e 2001, o casal começou a escrever um livro infantil enquanto dividia um galpão no sudeste de Portland. A primeira versão, os dois admitem, era imprópria para crianças. “Tínhamos uns 25 anos. Não sabíamos o que estávamos fazendo”, contou Ellis à revista Portland Monthly. Em 2022, Meloy escreveu em sua newsletter que as bases do projeto, de certa forma, antecedem a existência do The Decemberists. Durante a década seguinte, enquanto a banda gravava discos e excursionava pelo mundo, a ideia seguiu em gestação.
A virada veio quando o casal, já vizinho do Forest Park, parque urbano de cerca de 2 mil hectares em Portland, decidiu ambientar ali sua fantasia. Eles traçaram os limites do parque numa grande folha de papel e começaram a transformá-lo no mapa de um reino encantado, a Floresta Impenetrável, povoada por corujas e raposas falantes, bandoleiros e um exército de coiotes. Esse imaginário conversa diretamente com a obra do The Decemberists, conhecida por canções narrativas que bebem de folclore, mitologia e contos sombrios, caso de “The Mariner’s Revenge Song” e do disco conceitual The Hazards of Love (2009).
O encontro de Prue com Travis Knight
Em abril de 2010, ainda com o livro inacabado, Meloy fechou com a HarperCollins um contrato para uma trilogia, após um leilão entre editoras. A disputa chamou a atenção de estúdios de cinema, e o casal, receoso, deu ao agente uma condição que julgava impossível de cumprir: só aceitaria uma adaptação feita com a mesma técnica de Watership Down (1978), animação desenhada à mão, ou em stop-motion. Pouco depois veio a ligação da LAIKA, estúdio nascido em Portland e sediado em Hillsboro, a poucos quilômetros do Forest Park. Travis Knight, presidente e CEO do estúdio e hoje diretor do filme, leu o manuscrito inacabado e se apaixonou pelo projeto. A LAIKA também assinou o trailer animado de divulgação do livro, encomendado pela HarperCollins.
“E o encantamento de fato me esperava quando encontrei pela primeira vez o manuscrito inacabado de Wildwood, de Colin Meloy. Muito antes de chegar ao mundo como romance publicado, a prosa belíssima de Colin já havia lançado seu feitiço sobre mim. Em poucas páginas, senti aquela sensação rara e inconfundível que todo criador secretamente teme: ‘Ah, não. Este aqui é meu.’”
Travis Knight, diretor do filme e CEO da LAIKA
Wildwood chegou às livrarias americanas em 30 de agosto de 2011, pelo selo Balzer + Bray, da HarperCollins, com 85 ilustrações de Ellis, e passou duas semanas na lista de mais vendidos do New York Times. Em 8 de setembro do mesmo ano, a LAIKA anunciou a opção dos direitos de adaptação. Vieram depois as continuações Under Wildwood (2012) e Wildwood Imperium (2014). No Brasil, a Galera Record publicou o primeiro volume em 2014 justamente como O Bosque Selvagem, mesmo título que o filme recebe agora, e o segundo, O Bosque Subterrâneo, em 2016.
“Não há outro estúdio no mundo além da LAIKA a quem eu confiaria Wildwood.”
Colin Meloy, em 2011, quando a LAIKA adquiriu os direitos do livro
A adaptação levou 16 anos para sair do papel. A escala do livro superava o que a LAIKA conseguia fazer em stop-motion na época: o diretor de arte Nelson Lowry contou 136 locações diferentes no roteiro, contra 60 cenários externos de Kubo e as Cordas Mágicas. O casal também havia manifestado o receio de que o filme ofuscasse os livros antes de a série terminar, e a trilogia acabou concluída muito antes de a produção ganhar ritmo. Em setembro de 2021, a LAIKA anunciou oficialmente o projeto como seu sexto longa, com direção de Knight e roteiro de Chris Butler (ParaNorman). Depois da pandemia e de um adiamento de cerca de um ano, o filme teve première mundial em 11 de outubro de 2026, no BFI London Film Festival.
A trilha: duas canções inéditas do The Decemberists
A ligação com a banda se completa na música. O The Decemberists gravou “The Better Part of Bravery”, canção escrita por Meloy para os créditos finais e primeira faixa inédita do grupo em mais de dois anos, lançada como single em 9 de outubro. Ela encerra o álbum da trilha sonora oficial, lançado pela Decca Records com a trilha original de Dario Marianelli, vencedor do Oscar por Desejo e Reparação. Uma segunda coletânea, The Wildwood Sessions, lançada pela LAIKA em 16 de outubro, reúne faixas inéditas de artistas como Aminé, Portugal. The Man, Saya Gray, Still Woozy e quickly, quickly, além de outra canção nova do The Decemberists, “I Want To Be Lost”.

“Wildwood faz parte da minha vida há muitos anos, e ver a história transformada dessa forma foi uma experiência extraordinária. Escrever a canção para os créditos finais me deu a chance de voltar ao mundo de Wildwood de outra maneira. Há algo especialmente significativo em ter música acompanhando o público enquanto ele deixa a floresta e a história chega ao fim.”
Colin Meloy, sobre “The Better Part of Bravery”
O Bosque Selvagem está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil.


