A inteligência artificial é uma tecnologia que veio para ficar. Embora muitas pessoas se sintam ameaçadas por ela, o fato é que, quando uma ferramenta tão poderosa passa a existir, não há como simplesmente voltar atrás. Quem aprende a utilizá-la primeiro ganha vantagem e pode conquistar um lugar de destaque nesse mundo moderno, cada vez mais competitivo.
Mas como essa tecnologia pode transformar a vida de quem trabalha com jogos digitais, modelagem 3D e animação? Para entender melhor esse cenário, vamos compartilhar um pouco da nossa experiência com a Tripo AI, uma ferramenta que conhecemos de perto durante a Brasil Game Show 2026.
Minha experiência com modelagem 3D e desenvolvimento de jogos
Falando um pouco da minha experiência pessoal, concluí, em 2021, o curso de Jogos Digitais da Universidade FUMEC, em Belo Horizonte (MG). Durante a graduação, aprendi bastante sobre modelagem 3D de cenários e personagens, além de diversas técnicas utilizadas na produção de jogos, computação gráfica e animações.
Entre elas, estão o rigging, processo de criação de um esqueleto virtual que permite animar um personagem; o motion capture (MOCAP), técnica que captura movimentos corporais e expressões faciais do mundo real para reproduzi-los em personagens digitais; e a texturização, responsável por dar cores, materiais e detalhes às superfícies dos modelos 3D.
São conhecimentos fundamentais para a produção de personagens que não apenas tenham uma boa aparência, mas também possam se movimentar e interagir corretamente dentro de um ambiente virtual.
Até pouco tempo atrás, apesar da evolução dos softwares, boa parte do processo de produção continuava seguindo os mesmos princípios. Criar um único personagem 3D de qualidade, pronto para ser utilizado em um jogo, podia exigir muitas horas de trabalho, passando por diversas etapas técnicas, algumas bastante repetitivas e demoradas.
Isso contribuía para elevar os custos de desenvolvimento e, em alguns casos, tornava determinados projetos inviáveis. Para os estúdios independentes, conhecidos como indies, essas dificuldades eram ainda maiores. Com equipes pequenas e orçamentos limitados, muitos desenvolvedores optavam por jogos em 2D, que frequentemente exigiam menos recursos para serem produzidos.
É justamente nesse cenário que a inteligência artificial começa a abrir novas possibilidades.
A inteligência artificial está mudando as regras do jogo
A inteligência artificial está conquistando espaço em diferentes setores, da música e do entretenimento à medicina e à pesquisa de novos medicamentos.
Com ela, tarefas que antes exigiam muito tempo, dinheiro e conhecimento técnico especializado podem se tornar significativamente mais rápidas e acessíveis. Isso não significa que todos os problemas estejam resolvidos, mas representa uma mudança importante na maneira como determinadas atividades podem ser realizadas.
É evidente que essa evolução acelerada das IAs terá um impacto profundo no mundo e exigirá que muitas profissões se adaptem.
Entretanto, essa não é a primeira vez que a humanidade enfrenta uma transformação tecnológica dessa magnitude. Durante a Revolução Industrial, a chegada das máquinas modificou profundamente os processos de produção. Mais tarde, a revolução digital, impulsionada pelos computadores, transformou a maneira como trabalhamos, nos comunicamos e organizamos informações.
Diversas atividades profissionais mudaram ou desapareceram, enquanto novas profissões e especializações surgiram. Hoje, por exemplo, os profissionais de Tecnologia da Informação desempenham um papel fundamental na criação e manutenção de sistemas que tornam inúmeros processos mais eficientes.
A história mostra que a tecnologia não apenas substitui métodos antigos: ela também cria novas possibilidades.
No fim das contas, o mundo se adapta, novas ferramentas surgem e novas oportunidades aparecem. Essa capacidade de aprender, inovar e enfrentar desafios é uma das características que impulsionam a evolução da humanidade.
E, no universo dos games, estamos diante de mais uma dessas transformações.
Tripo AI na Brasil Game Show 2026: criando personagens em poucos minutos
Durante a Brasil Game Show 2026, visitamos o estande da Tripo AI e tivemos a oportunidade de experimentar algumas das funcionalidades da plataforma. Mesmo com o tempo limitado, conseguimos criar um personagem rapidamente e testá-lo na prática.
A empresa apresentou uma experiência interativa inspirada nos jogos do gênero beat ‘em up, aqueles em que os personagens enfrentam vários adversários enquanto avançam pelas fases, como nos clássicos jogos de briga de rua.
A proposta permitia que os visitantes utilizassem seus próprios personagens dentro do jogo, tornando a experiência ainda mais interessante.
Além da criação de modelos 3D por meio de comandos de texto, conhecidos como prompts, a Tripo AI também demonstrou uma tecnologia capaz de gerar personagens a partir de fotografias tiradas no próprio estande. As imagens eram utilizadas para criar representações tridimensionais dos visitantes, que depois podiam aparecer como personagens jogáveis na experiência apresentada.
Na prática, isso mostrou como a inteligência artificial pode aproximar a criação de conteúdo 3D de pessoas que não possuem experiência avançada em modelagem.
Depois de experimentar diferentes funcionalidades da Tripo AI, identificamos três perfis profissionais que, na nossa opinião, podem se beneficiar bastante dessas tecnologias.
1. Profissionais e entusiastas da impressão 3D
<ins>A impressão 3D é uma das áreas que podem aproveitar muito bem a geração de modelos com inteligência artificial.</ins>
Durante nossa visita à Brasil Game Show 2026, vimos modelos 3D sendo impressos no próprio estande da Tripo AI. A empresa também produziu algumas peças e as distribuiu como brindes aos visitantes.
Para quem trabalha com impressão 3D, a possibilidade de gerar modelos digitais com o auxílio da inteligência artificial pode representar uma grande economia de tempo, especialmente para quem não possui experiência avançada em modelagem tridimensional.
Em vez de começar um projeto inteiramente do zero, o usuário pode utilizar a IA para criar uma base que poderá ser ajustada conforme suas necessidades.
Isso abre oportunidades tanto para profissionais que já possuem equipamentos de impressão quanto para pequenas lojas que desejam ampliar seu catálogo de produtos personalizados.
É importante lembrar, porém, que nem todo modelo gerado por IA estará automaticamente pronto para impressão. Dependendo do resultado, ainda poderão ser necessários ajustes na geometria, na espessura das paredes e na integridade da malha, entre outros aspectos técnicos.
Mesmo com essas limitações, a tecnologia tem potencial para facilitar o desenvolvimento de peças personalizadas e acelerar a criação de novos produtos.
2. Desenvolvedores de jogos independentes (indies)
Os desenvolvedores independentes talvez estejam entre os profissionais que mais podem aproveitar esse tipo de ferramenta.
Em um jogo 3D, não basta criar um personagem visualmente atraente. Para que ele funcione corretamente, também é necessário preparar sua estrutura interna, definir suas articulações, configurar as animações e ajustar suas interações com o ambiente.
Nesse processo, o rigging é uma das etapas fundamentais. Ele permite que o modelo se movimente de maneira coerente, fazendo com que braços, pernas, tronco e outras partes do corpo acompanhem as articulações sem deformações indesejadas.
Outro aspecto importante é a configuração das áreas de colisão, responsáveis por determinar como os personagens interagem fisicamente com outros objetos, adversários e elementos do cenário.
Essas etapas podem consumir muitas horas de trabalho, especialmente quando a equipe possui poucos integrantes.
Com ferramentas como a Tripo AI, é possível gerar modelos 3D e, conforme os recursos disponíveis e o tipo de resultado produzido, obter personagens com estruturas preparadas para animação, reduzindo parte do trabalho necessário para incorporá-los a um projeto.
Isso não elimina a necessidade de testes, ajustes ou integração com a engine utilizada no desenvolvimento, mas pode diminuir consideravelmente o tempo gasto nas etapas iniciais de produção.
Para os estúdios indies, cada hora economizada representa uma oportunidade de investir mais esforço naquilo que realmente diferencia um jogo: sua jogabilidade, suas mecânicas, sua narrativa, sua direção artística e a experiência oferecida ao jogador.
Com custos menores e processos mais ágeis, projetos que antes pareciam inviáveis podem se tornar mais acessíveis.
3. Profissionais de animação 3D
Os animadores 3D também podem se beneficiar bastante da evolução dessas ferramentas.
A criação de personagens costuma envolver várias etapas anteriores à própria animação. É necessário produzir o modelo, preparar sua estrutura de articulações, configurar os controles e verificar se a geometria responde adequadamente aos movimentos.
Quando essas etapas são realizadas manualmente, qualquer problema pode exigir correções demoradas. Uma articulação mal configurada ou uma deformação inadequada, por exemplo, pode comprometer o resultado final.
Ao automatizar parte da geração dos modelos e de sua preparação para animação, a inteligência artificial pode ajudar a reduzir o tempo dedicado a tarefas repetitivas.
Com isso, os profissionais ganham mais liberdade para se concentrar na expressividade dos personagens, na qualidade dos movimentos, na interpretação das cenas e em outros aspectos criativos da produção.
É importante destacar que a qualidade do resultado dependerá da ferramenta, da complexidade do personagem e das exigências do projeto. Em produções profissionais mais complexas, a revisão e o refinamento manual ainda podem ser indispensáveis.
Mesmo assim, qualquer redução significativa no tempo necessário para preparar um personagem pode representar um ganho importante de produtividade.
EdenLive: a Tripo AI também quer revolucionar a criação de cenários 3D
No dia 20 de outubro de 2026, a Tripo AI lançou uma nova ferramenta chamada EdenLive, voltada à criação de ambientes tridimensionais por meio de inteligência artificial.
A novidade amplia as possibilidades de utilização da IA na produção de conteúdo para jogos e animações, levando a proposta para além da criação de personagens.
Com a ferramenta, a ideia é permitir a geração de cenários completos a partir de comandos de texto. Entre as possibilidades estão ambientes como florestas, cidades em ruínas e outros espaços que podem servir de base para mundos virtuais.
Até o momento da publicação desta matéria, ainda não tivemos tempo de testar o EdenLive pessoalmente. Por isso, preferimos aguardar uma experiência prática antes de apresentar uma avaliação mais detalhada sobre seus resultados e limitações.
Ainda assim, a proposta chama a atenção por abordar uma das etapas que também podem consumir muito tempo no desenvolvimento de jogos: a criação de ambientes tridimensionais.
Se a evolução dessa tecnologia acompanhar o avanço observado nas ferramentas de geração de personagens, poderemos ver novas possibilidades surgindo nos próximos anos.
Uma perspectiva interessante seria a ampliação dos recursos de criação de cenários a partir de fotografias e desenhos, permitindo transformar referências visuais em ambientes tridimensionais com menos trabalho manual. Essa é uma possibilidade futura, e não um recurso que estamos afirmando estar disponível atualmente no EdenLive.
Para desenvolvedores independentes, a combinação de ferramentas capazes de gerar personagens e cenários pode representar um avanço importante na produção de jogos completos.
O futuro pertence a quem aprende a utilizar as novas ferramentas
Como diz o ditado popular: “Quem chega primeiro, bebe água limpa.”
No mercado de desenvolvimento de jogos, animação e impressão 3D, essa ideia faz cada vez mais sentido. Profissionais e empresas que começarem a explorar as novas ferramentas de inteligência artificial desde cedo poderão desenvolver experiência prática, descobrir maneiras mais eficientes de trabalhar e identificar oportunidades antes de seus concorrentes.
Para os estúdios independentes, isso pode significar a possibilidade de produzir jogos com equipes menores e recursos mais limitados. Para quem trabalha com impressão 3D, pode representar a criação de produtos personalizados em menos tempo. Já para os animadores, pode abrir espaço para dedicar mais energia à criatividade e à qualidade artística.
É claro que a inteligência artificial não resolve todos os problemas, nem substitui automaticamente o conhecimento técnico e a experiência profissional. Saber avaliar os resultados, corrigir falhas e transformar uma ideia em um produto funcional continuará sendo fundamental.
Entretanto, ignorar essas mudanças pode significar perder oportunidades importantes.
A tecnologia está avançando rapidamente, e ferramentas como as desenvolvidas pela Tripo AI mostram como tarefas que antes exigiam conhecimentos especializados e muitas horas de trabalho estão se tornando mais acessíveis.
Talvez estejamos diante de uma nova fase da produção digital, na qual a principal barreira para tirar uma ideia do papel deixe de ser a complexidade técnica e passe a ser a capacidade de imaginar, experimentar e desenvolver boas ideias.
Para quem sonha em criar seu próprio jogo, produzir animações ou transformar modelos digitais em produtos físicos, esse cenário é especialmente promissor.
Afinal, se a tecnologia pode tornar a criação mais acessível, por que não aproveitar essa oportunidade para tirar os projetos do papel e dar vida às nossas ideias?


