Elizabeth Holmes atraiu a atenção dos holofotes ao alegar ter criado um aparelho capaz de realizar qualquer exame por meio de uma única gota de sangue. Ela rapidamente acumulou uma considerável fortuna, tendo sido nomeada como uma das mulheres mais ricas do mundo pela revista Forbes. Quando se tornou evidente a incapacidade do aparelho de cumprir com a função prometida, ela foi acusada de fraudar investidores. Ao final do processo, foi considerada culpada e sentenciada a 11 anos de prisão.
Trinta e quatro dias antes da data determinada para o início do cumprimento de pena, a mulher abriu as portas de sua casa para os documentaristas Nathan Fielder e Lance Oppenheim, permitindo a eles total acesso à sua rotina pessoal e familiar. E assim se inicia a primeira metade do documentário de quase 3 horas de duração que vem ganhando popularidade entre os cinéfilos e críticos de cinema. Mas afinal de contas, qual é o grande diferencial dessa obra a ponto de justificar o hype criado em torno dela?

O caso, por si só, é bastante famoso e já gerou outros projetos com certa notoriedade, mas isso não é, nem de longe, o principal motivo do sucesso absoluto do filme. Na parte inicial, antes de Holmes ir para prisão, Fielder acompanha seu dia a dia, enquanto a questiona incisivamente sobre o caso, em especial, quanto ao dispositivo desenvolvido por ela. Mesmo sob a pressão das câmeras, a mulher insiste na sua inocência, parecendo genuinamente acreditar não ter agido de má-fé em nenhum momento.
Fielder, que ao contrário de Oppenheim, se insere consideravelmente na narrativa, tornando-se também um personagem dentro dela – algo posteriormente debatido, ao final do longa. Ele busca compreender se aquela pessoa aparentemente tão convicta de sua retidão moral, cometeu os crimes dos quais fora acusada, se havia sofrido alguma manipulação ou se seria ingênua a ponto de ter cometido fraude por não compreender as implicações das próprias colocações.

Em umas das minhas cenas favoritas, Nathan mostra a Elizabeth uma das sketches de comédia mais famosas e a forma como ela processa o vídeo é bem reveladora. Há uma confusão gerada em torno do significado das palavras, e a possível ambiguidade causada pelo uso delas em contextos específicos. Poderia uma palavra mal interpretada ser considerada uma fraude? Qual o peso real dos significados das palavras e a intenção com a qual elas foram proferidas? Seria possível que tudo não passasse de uma confusão? O filme não tem a pretensão de oferecer respostas definitivas para essas indagações, mas as propõe de uma maneira tão provocativa que refletir sobre elas se torna um exercício mais interessante do que a busca por conclusões.
A sagacidade de Fielder para extrair tantas informações de seus documentados é combinada com a precisão da câmera de Lance Oppenheim, a quem cabe um papel mais voltado a observação e registro, algo feito com elegância e genialidade por um dos grandes documentaristas atuais. Não só a câmera está sempre idealmente posicionada, ele alterna planos mais abertos com closes específicos para ressaltar as preciosas reações dos envolvidos. Chama especial atenção, os olhares arregalados da protagonista, que permanecem gravados na mente do público, mesmo após sair da sessão.

Holmes se recolhe ao estabelecimento prisional por volta da metade do filme e, com isso, tudo poderia ter se descarrilhado, afinal, os cineastas “perdem” o acesso direto ao seu objeto de estudo. É então que um twist permite o avanço da narrativa por meio de uma aparição surpresa. A dupla de realizadores dobra a aposta e, enquanto tentam desvendar melhor o caso, levantam questionamentos sobre a própria linguagem documental. Não entrarei em maiores detalhes para evitar certos spoilers, porém a encenação para reconstruir alguns momentos chaves, equiparam Tudo Pode Ser Visto à Jogo de Cena, não só em formato, como em qualidade. Essa participação especial ainda rende uma comparação com May December, no tocante às performances envolvendo pessoas reais.
Na tentativa de compreender o ponto de vista de Holmes e, simultaneamente, propor considerações acerca da estrutura do documentário, Nathan Fielder termina sua obra prima sendo questionado qual teria sido o tamanho de seu envolvimento com a mulher e até que ponto isso comprometeria sua visão enquanto diretor. Seria possível um olhar desenviesado? Estaria ele sendo manipulado por ela? Ou nos manipulando? Mais uma vez, as perguntas interessam mais do que a fútil tentativa de tentar responde-las.


